Fotografia, Suzana Guimarães

domingo, 18 de junho de 2017


Ele estava arrumando o quarto dele. Chegou perto de mim e disse, ao entregar-me três pequenos álbuns de fotografias, "Duas delas talvez te farão sofrer."

​Cortou-me uma faca. Fotos de dez anos atrás. Minha última casa no Brasil, eu, grávida, ele, aos sete e oito anos de idade... 

Então, mãe, eu posso lhe dizer, agora, que eu estava errada ao lhe dizer que cinco anos seriam o suficiente para eu me curar de todas aquelas tristezas e de todo esforço empreendido... você disse, "Dez anos!". Possivelmente, pelo que eu vi em mim mesma, nas fotografias, não há cura, há somente um caminho a seguir, a continuação.

Com clareza, vejo o quanto eu era doce. Bonita! Bronzeada, cabelo bem curto, escuro, sorriso meigo; um barrigão enorme... sete, nove meses de gravidez.

Explica tudo, mãe, fotografias explicam tudo, relembrar.

Explica eu não aceitar certas fraquezas, posicionamentos ambíguos, leseira, ânimo frouxo. Não posso mesmo com parvoíces, que me desculpem os mais fracos.

Ele me disse, "Não foram duas, né, mãe? Foram vinte dezenas".

Mãe, você se lembra das cortinas das salas? Transparentes, claras, claríssimas, o sol batia nelas a tarde toda... e o vento. Elas voavam para fora das janelas, satisfeitas.


Junho, 18​

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