Suzana Guimarães Lily, by LRGM

sábado, 28 de setembro de 2013

Nada no mundo hoje me alcança, formou-se ao meu redor uma película invisível, intransponível. Estou só com o mundo. O mundo e eu e um fim.

Setembro, 28

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Uma formiga picou meu pé nesta manhã, na hora em que eu saía ou entrava no elevador do meu prédio. Mas, não foi a formiga, o meu incômodo. Parecia ser todo um formigueiro... O mormaço queimou meu rosto enquanto eu dirigia dentro de um carro gelado por conta do ar condicionado. O mormaço não foi o meu incômodo. Parecia verão, mas é outono. A criança ao lado fala uma palavra, ouço um caderno inteiro, todo mal escrito, sem nexo. Não é isso o meu incômodo. Desgasta-me a minha pele, os vãos entre a sanidade e a razão. Nem deve ser isso o incômodo. Se me perco ou me encontro, ou se nada disso acontece, como foi, hoje, durante uma aula, deixo a atenção de lado para preencher listas. Estou viciando-me nisso. Lista de supermercado, lista para ser cumprida a longo, médio ou bem curto prazo. Listas. Listas. Concentro-me bastante diante das folhas picadas em cima da minha carteira, até que ouço meu nome, e, novamente me aprumo. Meu professor não sabe, mas, atualmente, sou engodo.

Setembro, 24

Eu disse que gostava de diários?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

...bem melhor do que você quer me ofertar.



Imagem: desconheço autoria 


E os dias passam, e o calor, o ardor, a pressa. E passam pessoas do outro lado da rua e eu nem as vejo, passa o passado, em sonhos cansativos, contra os quais, nada posso. Assim como não posso ultrapassar os meus limites, não, eu nunca pensei em cavar linhas permissivas, divisórias em minha vida... mas, cavei. Vê aquele ponto ali? Vê aquele fio de rio que passa? Por ele, você não passará. 

E os dias passam, mas eu continuo naquela janela, olhando aquela igreja em meio ao rosa e azul. 

E permaneço bem perto dela, mesmo que ela não me sinta, não me saiba, não me veja. Para ultrapassar o fio de rio, você precisará da permissão dela. E ela está para poucos amigos, assim como também estou. Ela é a minha mãe.



Com a doença do meu pai, com o constante pedido nosso por doadores de sangue, pelas omissões, pelas noites seguidas em hospital, pela falta de visitas, o que antes era certeza, hoje, tornou-se máxima. Meu pai nunca gostou de festas, mas elas sempre existiram e sempre houve gente passando por lá. Hoje, o vazio dos outros marcou. Melhor chamar pra festa, resultado positivo, casa cheia.

Protejo-me debaixo das folhas secas que caem, aqui, é outono. É pouco, mas é tudo que tenho e bem melhor do que você quer me ofertar.


Setembro, 23

Assim estou, assim encontro-me...


E isso parece matar aos poucos... Dói em mim uma dor sem fim. Tremula em mim uma lágrima eterna, às vezes, pendurada, às vezes, guardada.

Setembro, 23

domingo, 22 de setembro de 2013

Discurso sobre cotovelos ralados, ou, o tanto que a coisa pequena pode incomodar.





Três dias atrás, ralei meus cotovelos por 50 minutos no meu quimono - novo - que por sua vez, esfregava-se no tatame e eu nem sentia. Era uma aula especial: testar o poder da mente sobre o corpo e aprender a disputar em prol de seu time. Ganhei as duas provas, provei que posso ausentar-me de mim mesma, e, por consequência, da dor e do peso do meu corpo. Eu sei realmente abstrair-me. Eu os ralei porque algumas pessoas do meu time perderam e a pena é alta, uma sequência infernal de exercícios. Só senti ao sair da academia e eles doem até hoje. São machucados pequenos, parecem insignificantes, mas eu descobri que bato-os o dia todo em todos os móveis e quinas de paredes, e preciso deles, dos cotovelos, para mudar de posição na cama, na hora de dormir, na hora de levantar, e, também os apoio mais do que eu imaginava... dois insetinhos incomodando o elefante, eu.

Eu nunca disse que eu era um elefante numa loja de cristais?

E eu disse que gostava de diários?


Setembro, 22

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Eu disse que gostava de diários?


Meu humor está absolutamente instável. Penso que esteja tão instável quanto a saúde do meu pai, a voz da minha mãe...

Setembro, 18


Picture by Daniela Ferreira



Eu disse que gostava de diários? 

Já me arrependi de muitas coisas que fiz e de outras que deixei de fazer. Mas, de uma, eu não me arrependo: a de ter deixado o Brasil e me tornado estrangeira. Mil vezes melhor.

Setembro, 18

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Na bolsa: gelol, gelinho e gelão...

Na bolsa: gelol, gelinho e gelão... 

Um quimono, uma faixa e água. O que basta, além de muita vontade. 

Após dois meses e meio parada, voltei, enfim! Doem o pescoço e o abdômen e os dedos das mãos parecem endurecidos. Ontem, eu aceitei todas as mãos que se estenderam para mim, para me ajudarem a levantar... sem a menor tentativa de mostrar-me inabalada. 

O corpo todo se abala, sim, parece uma locomotiva perdida, soltando fumaça, enlouquecida pelos campos... mas, como toda arte, e arte que é, o jiu jitsu ensina, ou melhor, sussurra aos meus ouvidos, de uma forma que parece aos gritos, contudo, é totalmente insidiosa. A lição de ontem foi: espera aí, vá com calma.

E, hoje, totalmente desacelerada, retornei a mim. Larguei as manias começadas, o espaço aberto ao choro, a vulnerabilidade, a pressa. 

Estive comigo, hoje, só eu e eu e isso foi ótimo!


Eu disse que gostava de diários?

Setembro, 17

domingo, 15 de setembro de 2013

Pervertida...


E eu disse que gostava de diários?


"Você é uma pervertida mesmo, seduz tudo e todos: homens, mulheres, borboletas..."

Seduzente riso, eu dei. Eu já disse que gosto de homens que me fazem rir?

Setembro, 15



sábado, 14 de setembro de 2013

Eu disse que gostava de diários?

Estou em um péssimo ponto, entre aqui e lá, aguardando. E essa espera mata a alma porque eu gostaria de não estar esperando.
 
Estou sem saber muito bem onde estou, se é que estou, se é que sou.
 
Estou perdendo meus registros, parte da minha biografia se esvai, escapa pelos meus dedos e a única coisa que posso fazer é deixar essa areia caminhada deslizar. E espero.
 
Espero reencontrar-me depois que essa maldade passar, depois que essa tempestade eterna cravar-se em mim, no oculto da célula, lá, onde eu comecei.  
 
Nem certa é a certeza de que tudo passa, pois apenas se distancia, distancia, tanto, mas tanto, que um dia, você também se vê, grão de areia de chão que se foi.
 
 
Setembro, 14

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Tenho uma prática, mas ando um pouco relapsa. Peço a Deus que salve por dia uma menina ou uma moça ou uma mulher que esteja sofrendo qualquer tipo de violência ou opressão, que esteja em cárcere privado ou em fuga. Creio em um poder maior, eu pouco posso fazer, mas é o que tenho feito. Uma por dia, em agradecimento à existência de alguém importante em minha vida.
 
Suzana Guimarães
 
Atemporal

Sobre as minhas idas ao Facebook

Venho porque para mim tudo por aqui é sarau, a televisão que não ligo, o livro que não tenho lido, a amiga que não existe para rirmos. Venho por vir, posso deixar de vir se "um poder maior me alcançar". Venho em paz, respeitosamente. Venho para me distrair, rir, ficar sabendo e também esquecer. Venho sem deixar que meu eu, o principal, torne-se acessório. Venho aqui porque acompanho o fluxo da humanidade, ou mesmo, a grande manada, e não posso ser muito diferente disso, já que detesto tudo o que destoa.
 
Setembro, 11

Nota: publicado originalmente no Facebook, hoje, setembro - 11.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

I`m feeling blessed for God.

Desconheço autoria da imagem


Tive um sonho há mais de um ano, início de 2012. Acordei feliz com o que viria pela frente para os meus filhos, em suas escolas. Mas, no sonho havia a surpresa do último instante. Ele, então, se concretizou pela metade e, por um ano, meu filho, meu marido e eu sofremos com a situação imposta. Porém, continuei acreditando na mudança, pois eu havia sonhado. E, todo dia, eu passava em frente ao colégio e todo dia eu relembrava. Por um ano, tivemos que suportar, até que outra nótícia chegou, o erro havia sido sanado, um ano depois. Então, não haveria o último instante, e eu voltava a me lembrar do sonho, que falava dele. Quando eu estava no Brasil, outra notícia, a de que o erro não havia sido corrigido, de fato, e, meu filho continuaria estudando no colégio que não era para ele e nem ele para tal instituição... isso, golpeou-me na alma. Impotência. Desespero. Chorei de doer. E a lembrança do sonho ardia... Dias depois, alguns anjos pessoas atenderam ao nosso pedido de socorro, e, enfim, o problema foi teoricamente resolvido. Contudo, eu não tinha mais tanta fé assim, ela desmoronou-se em idas e vindas... 


Era para ser no útimo instante, e foi, foi nos últimos quinze minutos, pois tudo continuava na mesma posição, até então. Os anjos ajudaram, mas alguns preguiçosos, não. O Sol ardia meu rosto, o diabo soprando seu hálito quente e eu correndo de um lado para o outro, e, me sentando, e fingindo-me calma, paciente. Como alguém pode ser assim, tão espremida? Na faculdade, nas provas orais, os professores diziam gostar de espremer-me para que saísse todo o sumo da laranja, meu conhecimento, a fruta. E eu sofria. 

Problema resolvido, voltei para casa, após duas horas. Doía todo o meu corpo. Eram os venenos, correndo pelas veias... remédio para dor foi a solução, pois eu tinha compromissos pela frente. 

Fico pensando na antipatia que muitos têm por americanos, inclusive eu, num passado bem remoto. Eles adoram a minha presença e demonstram isso. Eles adoram o meu sotaque, dizem "your accent is so beautiful!". Eles ficam tristes quando descobrem que estou fazendo uma matéria na faculdade para reduzi-lo. Eles socorreram-me, sem alarde, sem muita festa, eles são assim, pragmáticos. Eles me tratam com extrema calma e seus olhos brilham para mim, as mulheres abraçam-me bem apertado, brancas e negras, me espremem, mas, nesse caso, eu gosto e sorrio em agradecimento e aperto-as também. A nossa casa é onde nos sentimos bem, compreendidos e admirados. E nós falamos Línguas estranhas... contudo, os corações têm suas próprias regras de conduta.

Eu disse que gostava de diários?

I`m feeling blessed for God.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O passado lhe cutuca, o futuro sussurra. Você se encontra com todos os personagens que já viveu, e decide-se por um. Só mais tarde perceberá, pois só agora percebo, que na realidade deixou todos para trás muito antes deles se extinguirem, viviam por alimento seu apenas, o alimento da infantil insistência.
 
Eu disse que gostava de diários?
 
Setembro, 4


A gente inventa que tem que ser feliz e cria histórias. O pior, inventa alguém para amar ou desejar. Daí, criamos personagens para nós mesmos, ao longo da vida, fantasias que escolhemos, abraçamos e, na maioria das vezes, sem saber, usamos como esconderijo e como adequação. Sinistro esconderijo. 
 
Andei por aí, por longos anos, criando figuras, fiz melhor que um artista plástico, um ilusionista. Agora, retirei os personagens e deixei apenas aquele que não saiu, mesmo com muita esfrega, provavelmente, a minha essência, a minha única verdade. Eles já haviam sido expurgados,  mas eu sou, às vezes, muito teimosa - caminho fácil para a infelicidade. Inventei os meus personagens porque eu queria muito que eles amassem e fossem amados pelos meus ideais, homens que cismei serem o encaixe perfeito.
 
Um diamante será sempre um diamante, mesmo que eu passe a não mais admirar sua preciosidade, e a sociedade decida que trata-se somente de uma pedra qualquer. Coisas não mudam, são coisas. Mas, o amado muda, o idolatrado muda, o desejado vira um pobre coitado que só me recorda a minha cegueira burra. Amor, realmente, sentimento que é, não é cego. Nem nós, amantes.

De repente, como se fosse do nada, mas após longo tempo, a gente para e olha e enxerga e se pergunta: como, meu Deus, como fui enlouquecer, amar, sofrer, sonhar, pedir, rezar, aguardar por isto?
 
Simples teimosia. Como eu disse, estrada certa para desapontamentos. 
 
Setembro, 5.
 
 
Nota: Keanu Reeves* em uma entrevista disse: "As pessoas precisam ser felizes, eu, não."
 
 
 
Keanu Charles Reeves é um ator canadense, nascido no Líbano.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"O leão que sempre cavalguei"

Tenho duas vidas. A atual grita por mim e eu não aguento mais: onde está o novo adesivo de estacionamento, onde estão as meias escolares e como é que usa mesmo o meu celular? Não falem mais meu nome, não me chamem, fui ali, não voltei mais. Por aqui, um protótipo dos bem mal feitos de mim. Cato coisas pelo chão o dia todo. Não sei mais como se faz a ligação para o Brasil e ela cai e eu me irrito. Do outro lado, perguntam-me sobre detalhes de uma realidade que deixei para trás outro dia, mas que vivi intensamente, e, pelo intenso, agora amargo cansaço. Perguntam-me onde estou. Como? Onde estou? Vou tirar fotos. Vou publicar o mapa e minha atual posição... por que será que fazem isso? Gritam por privacidade, mas anunciam cada passo. Não, não estou no aeroporto, nem no restaurante e nem na ilha paradisíaca. Não, não sou metade de um casal eternamente feliz, eternamente sorriso, sou cansaço. Eu queria mesmo é que você publicasse a foto de você sentado na privada. Até me faz recordar, a atriz brasileira que foi mostrada sentada no vaso sanitário, vestida de Mulher Maravilha. Falta pouco para a Mulher Maravilha aqui, fazer o mesmo. No mundo de mapas sinalizados atual, eu quero qualquer coisa bem escondida, fechada, intrínseca. Alma de tatu-bola me faz voltar, voltar... 

Meu filho queria voltar, minha filha não sabe como chamará a nova professora, Ms. alguma coisa, deixa para lá, filha, todos terão que decorar. Cheguei há dias, que dia foi? Não vi a rua, fujo do Sol, finjo que regresso. 

Bem na hora, bem na hora em que ele andava em brasas, aos cuidados, e eu, a brasa. 

Setembro, 3

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

sobre um rei que não era rei...

Por minha livre vontade, eu o coroei. Dei-lhe poderes. Dei-lhe certezas e tamanho. Eu o ensinei a ser rei e conselheiro, num tempo em que todos o viam, o bobo da corte. Ou o estúpido, ou o indelicado, ou o grosseiro e mentiroso cavaleiro do cavalo manco.
 
Eu o coroei e fui cuidar dos meus jardins, de nossos jardins, e, distraída, deixei-o livre.
 
Eu, pássaro, feita de voos; eu, árvore, sem idade, em grossas raízes, nunca me importei muito com o mundo externo. Eu queria enxergar por além das cores das flores. Por sentir-me livre, dei-lhe liberdade, junto com o poder. Mas, ele nunca foi meu rei.
 
Ele nunca foi meu rei e eu nunca me importei...
 
Até que um dia, esse rei, que não era na realidade um rei, apenas coroado por mim, viu que minhas asas poderiam não ser assim tão longas e sem fim... e que as raízes um tanto curtas ou quebradiças ou desgraçadas...
 
Eu o coroei e ele depreciou-me, "suas asas são frágeis e sua copa e raízes, e sua sombra e seus ventos e seus chãos e céus... tudo pouco, muito pouco", e ele riu.
 
A coroa caiu. O cavalo manco reencontrou o caminho de casa. O rei permanece sentindo-se rei e eu morri e renasci, para novamente morrer e renascer...
 
porque eu sei ser sem precisar ter, porque meu caminho nunca foi meu, e, a mim, sempre me atraiu apenas a beleza das flores após o amassar da terra suja.
 
 
Setembro, 2

 

domingo, 1 de setembro de 2013

Então, chegou setembro e eu nem esperava por ele...

Ele me deu um rápido beijo do lado esquerdo do meu rosto. Subiu e desceu um arrepio. Tive um orgasmo.
 
 
 
Qual o nome do meu seguro de saúde? Qual o passeio que pensei fazer? Qual o dia em que fui mais feliz? Quando foi que eu perdi a graça com alguém? Quando foi que comecei a afeiçoar-me? Quando foi que disseram-me algo puro e verdadeiro? Quando foi a última vez em que ouvi este pássaro que canta agora e me senti em paz? Quando foi o tempo em que eu não pedia cinco minutos de solidão e não precisava esconder-me para estar só? Quando foi que eu passava dias sem o assalto do mal? Quando foi que eu pensei que tudo aquilo era amor? E quando foi que tive a certeza de que era fuga? Quando foi que eu me deixei acreditar e afirmei vários nãos recebidos?

Faz tempo. Outros pássaros passam em bando. Meu endereço mudou, inclusive meus registros. Da agenda, infantilmente, apaguei vários endereços, telefones e mensagens. Retirei muitos da lista de contatos. Confiante estou, pois mal guardo meu número de telefone celular, não sei o da minha casa, sequer a placa do meu carro.
 
Eu sei de mim. Eu sei porque fiquei longo tempo aprendendo... não me esquivei da dureza da descoberta e muito menos da suavidade. Sim, eu sei ser suave, mas isso é para poucos.
 
 
 
 
Mais tarde, ele me fez uma pergunta. Se respondi, não me lembro. E, se respondi, foi qualquer coisa, pois, até hoje, a verdadeira resposta eu também sei que não sei.
 
 
Eu disse que gostava de diários?
 
Setembro, 1