Fotografia, Suzana Guimarães

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Eu era franzina, um fiapo de gente, brava, mas esmirrada. Na escola e na intimidade daquela família enorme que todos nós temos, lado paterno e materno, primos próximos, tias distantes, e outros não tão assim, nada ouvi sobre alguma beleza em mim, quando podiam, comentavam sobre o temperamento ruim, "igual ao pai". Aos treze anos, minha mãe percebeu um certo desajeito meu ao andar e decidiu-se e empenhou-se em dar-me algum verniz. Fiz dança, artes e ouvia elogios por parte dela, mas eu ainda não havia decidido sobre isso. Aos dezesseis anos, por minha conta, não me lembro o dia ou os dias, a época, decidi procurar em mim tudo o que era belo e dar ênfase a isso. Desde então, ninguém mais precisa dizer-me qualquer coisa que seja. Esse início de vida - talvez seja a causa, talvez, não - me fez gostar de poucos. Trato a todos muito bem, mas gosto de pouquíssima gente.

Estou aqui pensando, se quem se banha em águas de alegrias diárias me lê ou me vê, ultimamente, deve estar se coçando de necessidade de mais água e sabão, pois, eu não paro. Venho em lamúria e não é de hoje, mas "o ano não foi nenhuma pera doce", frase de uma amigo escritor.

Isolo-me mais a cada dia que passa, por gosto, e seleciono cada vez mais. Poucos, em solo americano, considero meus, meus em confiança... 

E, neste ano que parece não acabar, mesmo com a minha mãe dizendo, "ele está no fim", e eu sabendo que não, e isso não é pessimismo, é sensitivismo, recebo a notícia de que um amigo que gostei no primeiro olhar, no primeiro contato, e que, por mim, sentiu o mesmo, e, nós dois bradamos orgulhosos "não falem mal perto de mim porque grande é a admiração", e ele que nem todo dia eu vejo, mas, que quando vejo, sei que posso confiar, ele teve um ataque cardíaco e está num centro de tratamento intensivo, isso, de ontem para hoje.

Hoje, mais cedo, enquanto eu dirigia na longa estrada que leva ao consultório do meu médico, peguei-me admirando a paisagem, que é belíssima, e pensando em 'daisies', margaridas brancas, inúmeras, um tanto enorme que enchia além da visão possível... 

Tenho horror da turma do banho eterno de felicidade, aquela gente que diz que acorda e dorme feliz. Prefiro pensar em 'daisies', prefiro fazer um tapete delas, para esperar o meu amigo se levantar e nele passar, pois ele me deve um almoço, um café, um meio de tarde para desfrutarmos juntos.

Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 26

quinta-feira, 21 de novembro de 2013


Uma dádiva, chove desde ontem. O que era rotineiro, e muitas vezes desconfortável e inoportuno, agora, para mim e meu filho, é milagre. Chuva fina e constante, nem de longe assemelha-se às tempestades tropicais, mas acalma. Então, por isso, por mim, o compromisso das 11h, vou pular, darei boa desculpa. Às 3h, tenho outro, inadiável, daí, neste tempo que tenho, estarei comigo. Abri as portas de vidro da varanda, coisa que raramente faço, e uma janela, para correr o ar. Cansou-me o barulho falso do ar-condicionado, fingindo frescor e chuva, da mesma forma que cansei de quem me esgota e finge. Eu preciso de delicadezas, e não de dedos apontados, lição de moral, falas altas e de pragas desferidas, hipocritamente vestidas com a cara do bem. As pessoas não sabem, mas, cedo, cedo, eu conheci o olhar do mal, naquela figura que sequer disfarçava de tão má... 

É como se eu estivesse doente. Eu estou doente; na alma. Tristeza e decepção fazem parte de nossas vidas, mas o ato repetitivo, a desgraça que parece se alongar durante as madrugadas, procriando-se em outras tantas, corrói o mais valente dos indivíduos. 

Hoje, vou olhar os anéis de família, recordar e sentir o bem que a chuva traz.

Novembro, 21

Os bichos da casa da minha mãe estão morrendo, desde antes da morte do meu pai, e continuam a morrer. 


Novembro, 20




Ontem, o meu professor de Jiu Jitsu disse que eu não estava lutando jj, mas, sim, gladiando, bufando, trincando os dentes, gastando força... talvez, não sei, não haja mais espaço para essas coisas em minha vida, as coisas da gentileza. Tenho medo de endurecer de vez, trincar, quebrar e acabar.

Novembro, 20 e o ano não acaba, como se isso mudasse a verdadeira órbita.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Eu disse que gostava de diários? Não, eu nunca disse nada.


Onde está escrito que eu tenho que gostar de você só porque você gosta de mim? Durante toda a minha vida, fui obrigada a pegar muitos dos meus bons sentimentos e lacrá-los ou neles dar descarrego ou deles me afastar apressadamente, antes que virassem doença. A gente gosta de quem a gente quiser, mas a recíproca nem sempre é verdadeira. Sinto-me mal com a persistência de amor insistido.


Eu disse que gostava de diários? Não, eu nunca disse nada.

Novembro, 19

segunda-feira, 18 de novembro de 2013



by SCG

Fato: o ano terminou para mim, estou no vácuo que os ventos deixam.

E eu disse que gostava de diários?

domingo, 17 de novembro de 2013

By  Suzana Guimarães
Hoje, 49 dias após a morte do meu pai, eu consegui falar dele, ao telefone, com a minha mãe, sem chorar. Ontem, eu chorei um pouco, de repente, e sei que amanhã chorarei inúmeras vezes e por todos os amanhãs, mas, hoje, não.

Hoje, fez um dia lindo, talvez, dias lindos já tenham passado por mim, nos últimos meses... e eu não pude vê-los. Não me importo. Sou de um mundo onde o sentir é muito.

Possuo uma senha que tem o nome do meu pai no meio dela. Meu filho, outro dia, me viu digitando-a e disse: "Você precisa parar com isso, para parar de se lembrar e sofrer." Respondi: "Totalmente impossível esquecê-lo, eu sempre me lembrarei dele, a gente não esquece pai e mãe."




Novembro, 17

sábado, 16 de novembro de 2013

Se dispenso pessoas importantes da minha história, por que não dispensar os menores em significado para mim?

Novembro, 16



Sempre que eu pensar em amolecer com quem não merece, de agora em diante, lembrarei desta época, da morte do meu pai, ficou como um sinal, um limite, uma linha, um aviso de alerta.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

solidão, depende de tamanho e número

Eu gosto de solidão a sós, e detesto solidão a dois.

Novembro, 12 
O ato desmedido retira o valor do brilho; vira um farol alto nos olhos, coração, sentidos e sentimentos a incomodar e mais nada.

Novembro, 11

domingo, 10 de novembro de 2013

Sobre maridos

Eu, alongando, para fazer jiu jitsu. Mas, aqui em casa, não há tempo nem para isso... e ainda não fiz 50% do serviço adoravelmente doméstico e nem as luzes... estive pensando, fiquei 4 meses e meio transitando num mundo à parte, e, marido não vê alimentos estragando dentro de armário. Fica a pergunta, além de pagar contas, marido serve para mais o quê? 

P.S.: não estou falando de pai, só de marido, e nem estou falando de homem. O juiz diz: "eu vos declaro marido e mulher". Então, para que servem os maridos, além de pagar contas? 


E eu disse que gostava de diários?

Novembro, 10

(desconheço autoria da fotografia)

sábado, 9 de novembro de 2013

MORENA

Amanhã, farei luzes loiras no meu cabelo que pintei de marrom escuro. Meu filho disse que não gostou, minha filha, também. Ela disse que nem sabe o que é morena.

Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 9

Disseram-me para eu tomar algum remédio para Depressão. Eu não sei, penso que é só tristeza, mas, na dúvida, há o tatame, e nele, eu ganho serotonina. Que Deus me guarde e aos anjos digam 'amém'. No mais, tratar de comer mais banana, tomate, chocolate e tomar vinho. 

Novembro, 8

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Quem anda por este deserto, sabe de mim. Meus colegas também sabem de mim. Sumi das aulas de Inglês, larguei o jiu jitsu, estou comendo salsicha em lata como se fosse nutritivo, meu sono aumentou, e também o meu cansaço. Hoje, eu apareci por lá, esqueci de levar minha pasta com livros e cadernos. Pedi desculpas ao professor, ele não se importou, sorriu. Na saída, dois colegas pararam para perguntar como eu estava. Eu falei da geladeira que pifou. Falei também da minha solidão, xinguei o técnico que está enrolando. No estacionamento, encontrei-me com Mrs. M., não nos víamos desde junho passado. Desci do carro para falar com ela. Dizem que os americanos são frios... pois, de cara, ela me deu uns três abraços, após minhas tristes notícias, mais uns três ou quatro. Não tem povo ou raça fria, tem gente fria, é diferente. 

Dias atrás, eu disse que não queria que meu luto piorasse e nem melhorasse. Eu disse a ela que ele piorou. Ela tirou os óculos escuros, olhou-me nos olhos e disse que sim, sim, com o tempo, piora. Que eu me fiz forte por causa da minha mãe, que eu precisava suportar a viagem de ida e volta. 

Agora, leio sobre desertos dentro de nós. Há um em mim e eu gostaria de pedir para ninguém nele caminhar.


Novembro, 5

domingo, 3 de novembro de 2013

Olhos Azul Brandeis Blue



Ele veio andando em minha direção e eu só percebi a cor quando ele me olhando, perguntou: "Mrs. Meneghini?". "Not, not... Mrs. Guimarães", respondi. Meu Deus, eu vi a encarnação da beleza: um par de olhos azuis, muito mais densos e brilhantes que a mais bela das Safiras, azul quase invenção, quase mentira, azul Brandeis Blue, que eu até então não conhecia. Azul da cor do pequeno retângulo do Google, mandando fazer Login, e do "Enviar", da cor da gominha de cabelo da minha filha, que acabo de ver em cima da pia do banheiro. Nem sei o que ele falou para mim e para o meu filho, só sei que eu disse, "Your eyes are pretty!", e, enquanto dizia, tola me sentia porque jamais conseguiria definição completa. Ele riu e agradeceu e, mais tarde, meu filho comentou: "E eu que fiquei um ano tendo aulas com ele e vendo aqueles olhos...".

Azul da paleta de tintas que o artista não pinga, espreme e esparrama desmedidamente. 

Azul hipnótico, deixou-me tonta, ainda bem que não me perguntou mais nada...


Meu Deus ainda desenhou sobrancelhas e cabelos negro do carvão, da mais escura de todas as noites...

e parece que ele nem sabe...



Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 3
Quando me perco no trânsito, minha filha de seis anos, sempre em único tom, seco, baixo e para dentro, como se fosse "bosta", solta única palavra: "lost". 

Diários... e eu rio.

Como vai você?

Como vai você, pai? Estivemos tanto tempo, eu, bem menos, cuidando de você, e agora que o perdi de vista, ficou o incômodo, um enorme vazio, eu preciso saber se você está bem.

Suzana

Novembro, 3

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vida de estrangeira

Em meu primeiro ano, na América do Norte, morei em três lugares diferentes, em uma mesma cidade; sozinhos, nós quatro, marido, dois filhos e eu fizemos as mudanças.

Se meus filhos adoecem, como hoje, fico em casa.

Se a geladeira quebra ou o banheiro vaza, fico em casa.

Se tenho algum compromisso com meu marido, mas não posso levar os filhos, ficamos em casa ou só vai um dos dois.

Quando um de nós precisou passar por uma cirurgia, salvo uma exceção, permanecemos sozinhos.

Não posso ter um chefe, ele me dispensaria. Não posso ter amigos, pois eles vivem muito longe.

Perguntaram-me, na faculdade, se tenho amigos. Demorei longo tempo para responder. Fiquei olhando para o rosto da pessoa, pensando, pensando...

Se tenho dores físicas, se tenho algum mal estar, isso não implica em não levar e buscar os filhos em suas escolas.

A praia é boa, mas a água é gelada.

Não, eu não aprendi cedo a viver só, eu disse isso para a colega da faculdade, mas, menti. Eu já nasci sabendo viver sozinha e gostava. Tentei ser disponível, mas descobri que a rua era de mão única, daí, busquei e alcancei a indisponibilidade sem culpas.

Algumas pessoas não dirigem porque não querem, têm medo ou sei lá o quê, graças a Deus, sempre gostei, porque, sem carro, em minha cidade e adjacências, é impossível a locomoção.

A praia é boa, a água é gelada, mas não ando pelas ruas morrendo de medo de assaltos. Se acontecer, foi um ato isolado, não um fato corriqueiro.

Eu já tenho um razoável Inglês, mas percebi que não falo muitas vezes porque não quero, é, atualmente, ótima desculpa.

Por incrível que possa parecer, apesar da solidão, da falta da saída para um café, para o cinema, para a casa da minha mãe, apesar da falta de muitas coisas que pareciam sem importância, gosto de ser estrangeira.

É o que mais me identifica, desde sempre, a qualidade ou o defeito de ser estranha. Essa condição só perde para a maternidade, grande surpresa em minha vida, a melhor delas, incomparável, indizível.

Então, fico aqui, com meus filhotes, antes que eles cresçam e também decidam ser estrangeiros. E, nos campos, os trigos se fazem sozinhos...


Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 1