Fotografia, Suzana Guimarães

sexta-feira, 30 de agosto de 2013



Meus olhos ardem. Minha garganta arde. Ontem, bateu em mim um incômodo geral, como se eu estivesse adoecendo. Passei a noite virando-me na cama, procurando a melhor posição. Tentativas tolas. Embaraços são nós que nunca desatam.

 
Agosto, 27

 
 
Eu disse algo sobre diários?

'Em 30 anos, nunca conversamos.'

 

Adorei esta frase: 'Em 30 anos, nunca conversamos.' 

Eu queria escrever algo sobre esmaltes, adoro esmaltes de unhas. 'Ainda tenho as unhas pra pintar...', sim, escreverei sobre, porque ainda tenho tempo, a hora seguinte faz promessa, sempre.


Meus filhos estão histéricos? Não sei a razão das férias escolares americanas durarem dois meses e três semanas. A minha mãe sempre disse: "lugar de criança é na escola".

Eu estou histérica? Não, apenas não há mais espaço para mim. Eles me chamam o tempo todo. Eles reclamam. Eles gritam. Eles pedem. Cadê eu? 

Agosto, 27

Diários... sim, antes que eu enlouqueça.

Os diários não se perderam, apenas o tempo. Tudo muito acumulado em mim, em camadas. Depois, irei soltando, quando por debaixo daquela árvore eu não mais passar. Querendo ou não, os dias se sucedem e as pequenas folhas que hoje bailaram nos ares para mim irão se perder, ou, perdidas já estão, deixaram um adeus silencioso, disseram-me coisas, mas eu ainda não sei o quê. Mais tarde, elas se soltarão da minha lembrança, na hora em que eu abrir uma pequena e oportuna brecha.

Eu disse que gostava de diários? 
Agosto, 27




Preciso de concentração para pintar as unhas, para escovar os dentes, para fazer malas. Preciso de concentração o tempo todo porque, quando mais o tempo passa, mais vou me perdendo. Perdendo mesmo, de uma forma incontrolável, sem sentido, desgarrando... Tenho até medo de secar de vez e tornar-me um ser apenas falante e pensante, observador. Ando com medo de me distanciar demais da minha condição de carne.


Ela ainda diz que irá chover e eu continuo esperando.


Ninguém sabe dos meus vacilos, daqueles momentos de extrema fraqueza. Assim é porque eu aprendi a me esquivar deles... nunca há muito tempo entre um sentir e outro. Foi-se o tempo em que eu poderia saboreá-los.


Às vezes, penso em gritar. Às vezes, penso em deixar tudo pra lá. Mas, ele me disse que se sente morto, então, não estou só.


Agosto, 27
Eu disse alguma coisa sobre diários?

Diários?

A gente bate no peito e brada meu grande amigo. E eu pergunto: amigo? Mais nada sei sobre amizade, meu Deus, emburrei de vez. Serei inteligente quando eu disser obrigada antes de ter que pedir.
Agosto, 23. Na realidade, agosto, 22.

 
Eu disse que gostava de diários?
 
 
 
 
 
 
Não se aproxime muito. Carrego em mim o poder do descortinar, de colocar o podre para fora, de fazer o perfume feder.
 
Agosto, 23
 
 
Vê quem quer, quem aproveita.

 

Há pessoas lindas, maravilhosas por dentro e por fora, elas calam a boca do mal. Eu sou uma campeã simplesmente porque elas atravessam o meu caminho, porque fazem de suas existências um ato a mais e não mera presença.
 
 

Agosto, 21




O que eu fiz, ontem? Simplesmente, cuidei de mim. Cuidadores devem primeiro cuidar de si mesmos e eu, ontem, dediquei o dia para os meus cuidados. Cuidei das minhas finanças, fiz algumas compras e fui ao salão de beleza. Sentada na cadeira giratória, me diverti. Há em mim muita insistência em ser feliz.
 
 
Agosto, 21



O Diário será transportado para um novo blog. Ficarei um pouco ausente, mas ele continuará. Estou entre um passo e o outro, e, é aí, nesse ponto, que torna-se possível o tombo. É preciso respirar, recolher tudo o que foi bom, esquecer o ruim e continuar. Tão fácil falar, escrever... Mas, o que há realmente de verdadeiro em tudo o que aconteceu? Eu. Somente, eu. Vi tanta coisa mais ou menos, tanta coisa a flutuar... sei abstrair, eu sei, mas uma coisa é desprender-se nos momentos oportunos e adequados e outra é fazer-se de sonso. Poucos são os sonsos que me agradam, esses, não fazem mal a ninguém. A grande maioria é simplesmente biscoito de polvilho, muito barulho, nenhuma sustância! Até em minhas maiores loucuras, nos piores momentos em que estive doente mental ou fisicamente, eu não fui sonsa. Há em mim muita ira, uma força descomunal, desejo bruto, há em mim a firmeza do olhar do tigre. Mas, ontem, ele pediu, "ensina-me a ser duro", e eu me fiz garoa, placidez, mormaço, quase um equívoco... uma sonsa. Não é a hora dele aprender. A gente aprende quando tem que ser, ou mesmo nunca. Muitas almas chegam ao mundo em visível passeio, brinde da vida a nós pequeninos seres dramáticos. Essas pessoas peixes deslizam mesmo que em pedras... possuem uma enorme capacidade de não serem, apenas vão, continuam.

Agosto, 23.

Eu disse que gostava de diários?

Sobre diários?

Tenho a capacidade de adequar-me. Adequação pode ser sinônimo de força. Sim, sou forte e parceladamente má.

Agosto, 19
 
 
Deus, senhor do universo, pega o meu coração. Ele está em minha mão.
Agosto, 21 - sobre um diário...
 
 
 



Se eu sumir, é porque morri de sono...




Hoje, eu quero um dia nublado. Se chover, melhor ainda! Chuva tropical. Trovões. Aguaceiros. Quero ver chuva. Sentir chuva. Cheirar o que a chuva deixa.


Agosto, 19.
 
Conversávamos muito seriamente. De repente, ele pergunta o porquê de eu estar usando o sutiã por cima da roupa... Quem disse que eu não posso surtar?

Agosto, 17






No hospital, quem fica por último na lista dos vivos da família e dos amigos é chamado de veterano. 

A vida começa às cinco, perde-se a individualidade, nomes são confundidos, é sempre segunda-feira... Parei com a tosse assim que tive certeza de que era emocional. A pulseira lilás colada no meu pulso lembra-me toda a humanidade já marcada... Há, em mim, tantas coisas sem explicações plausíveis...


Agosto, 18
 
 
 
Guardo esta noite, um olho dentro, o outro, fora, muito além de tudo que a visão da janela me dá.
Agosto, 18
 
 
Fiquei para morrer, por pouco arrastei-me pelos chãos que pisava. Passou janeiro, fevereiro, março... a minha mãe dizia, espera por maio. Esperei. Continuei a morrer, cada neurônio querendo vida e eu não tinha forças, praticamente arrastei-me pelas manhãs, na rotina das tardes, em noites para serem esquecidas. Passou maio, junho... em julho, apunhalaram-me num descuido meu e os céus fecharam-se em noite escura. Morre-se, sim, de tristeza, o corpo padece. No espelho, várias de mim, e em nenhuma, eu me reconhecia. No final de julho, alguns me deram coroa, flores, curvaram-se a mim em cumprimento e eu a eles. Num lapso de tempo que não se pode prever, fui obrigada a levantar-me, a dizer 'vá à merda', apaguei inúmeros contatos, nas agendas, nos telefones e em mim. Dei-me por vencida, mas continuei. Em agosto, mês dos meus gostos. Quem manda sou eu, inclusive em mim. Se tenho algo para os que passei a borracha? Sim, tenho, meu riso e deboche. Não moro no Jardim Califórnia, não treino de favor, não sou comparável à moral alheia porque tenho meu próprio juízo de valor. Não falo bem o Inglês, mas domino a mais refinada das linguagens. Na realidade maior, digo, nasci sozinha e assim morrerei. Não preciso das pessoas, apenas amo alguns.

Eu disse que gostava de diários?

Agosto, 15






A cadela já não me segue pela casa. A sequência interminável de 'déjà vu'  se foi, já não vejo mais o já visto. A certeza de que aqui não é o meu lugar aumentou. Permaneço receiosa de arrancar nos morros... Eu, que fazia isso tão bem! Não quero sentir saudade do jeep, do tatame e da varanda. Tomei birra de querências.


Agosto, 17
 
 
 
 
Anular em mim as sobras que o outro deixou. Deixar em mim, as dobras que eu mesma fiz.

Agosto, 17



Uma notícia ruim atrás de outra. Farei um colar, vou chorar e me jogar no mar porque às vezes falta ar, falta par. Queria sair de cena, ir pra janela, pra ver a vida passar. Melhor virar ostra.

Agosto, 14


Gritar não resolve, nem fazer as unhas, muito menos comprar um carro. Pedir socorro não reverbera. Pedir mansinho, também, não! Chorar alivia. Chorar, chorar, mas até quando? Amanhã, vem a rotina. Sucuri que engole.
 
Agosto, 14
 
 
 
"Você está no lugar certo e tempo exato onde deveria estar... ninguém além de você conseguiria"...
 
Assim, ela escreveu para mim e eu duvidei. Pela manhã, entendi. Eu queria estar comigo, num lugar  distante; quis também estar acompanhada; eu quis ir ao cinema todas as tardes, tomar um café. Quase me vi escalando montes e despencando em barrancos, colhendo matinhos inúteis, olhando os dedos das minha mãos, observando a minha pele com todos os seus recortes... Vi nada do que queria ver, mas vi outras coisas, outras pessoas, vivi outros momentos. Já basta!
 
Nunca chego na hora certa (salvo compromissos marcados), é a hora que espera eu chegar. Não pense que isso significa algum poder ou alguma capacidade adivinhatória, nem chega a ser bom porque é sempre obrigatório.
 
A hora me espera porque não sou divina, porque não sou anjo, sou gente e preciso de tempo para embarques e desembarques.
 
 
Agosto, 15
 
 
 
P.S.: eu disse que gostava de diários, Cris?


Contos de Lily não é ficção. Ficção é a minha vida.
 
 
Dias de 2013
 
 
Sem muito a dizer: além de alguns vivos que morreram para mim, no último mês, quatro se foram, literalmente. Fase sombria e solitária. 

Sem tempo para gozar as alegrias porque a tristeza está de plantão...
 
Agosto, 13
 
 
 
Mas, anos atrás, ganhei um presente, neste dia, 13 de agosto: uma boneca. Arredo as dores para o lado e concentro-me nela. Ela tem cabelos de seda, carinha de Lua, sotaque de embalar os ouvidos e grito de imperatriz. Eu a amo. Eu a amo.

Agosto, 13
 
 
Ele dizia "olá, como vai?", e estendia a mão para mim. Alguns pensavam que ele sabia falar em Português e perguntavam. A gente ria. Não, ele só sabe falar isso, eu dizia. Tentei ensiná-lo a falar outras coisas, como por exemplo: 'tudo joia?'. Expliquei o significado e a diferença para bijuteria. Ele virou para mim e disse, "eu sou joia, você, bijuteria". Ele falava em Espanhol para eu entender. Ele foi o primeiro a fazer um triângulo em mim e eu dei um grito antes que ele terminasse e ele disse "não fiz nada". Aprendi que eu deveria conversar enquanto treinava porque não posso e nem devo parar para pensar no que fazer. Aprendi várias técnicas com ele. Ele era todo tatuado. Estava sempre de quimono azul, bem humorado e feliz. Nunca o vi com outro humor. Era sempre doce, gentil...

Ele morreu. 
Lamento, lamento, lamento.

Agosto, um dia triste.
 

 
Rest in peace, J.
 
 
 
 
 
 
 
 
Dia longo. Brotoejas na cara. Saudade da mesa de vidro, da varanda, do jeep. A cachorra fede aos meus pés. Solta gases. Tampo o nariz e digito. Estou tossindo. É emocional e é porque às vezes eu me engasgo por rir. Dia longo e eu querendo dormir desde quando acordei. Saudade até de você, cara torta! Dia longo...

Agosto, 9



Eu fotografava Belo Horizonte, pelas janelas do táxi, no banco de trás, e o motorista dizia-me que eu deveria ser mais patriota. Não sei se faço belas fotos, mas meu olhar é destituído de preconceitos. Ele perguntou-me se eu queria voltar, eu disse jamais. Ele disse que eu não precisava ter medo de ter a minha câmera arrancada de mim, eu ri. Ele disse que também havia morado na América, em San Francisco. Perguntou onde eu morava. Eu disse, na Califórnia, também. Ele contestou, então você não mora em San Francisco. Bom, deixa para lá, o fato é: ele disse que ganharia o mundo, mas jamais seria radical, desfazendo-se do Brasil. Respondi que muitos problemas que temos num país, não temos no outro e vice-versa. E eu havia feito a minha opção de problemas. Ele disse que ninguém quer ter problemas. Respondi: não se vive sem eles. Ele perguntou se eu conhecia Mucuri. Ele não sabe, eu conheço o cu do mundo. 

Agosto, 9 




Acordei pensando no motorista do táxi. Ele vive em pedras e asfalto e é utópico, mal sabe onde pisa. Eu faço versos, pareço transitar da nuvem rosa para a azul, o dia todo, pareço. Eu faço versos, mas não sofro de utopia. Talvez eu seja simplesmente míope, só consigo ver de perto, o longe é longínquo demais para mim.

Agosto, 10



Falaram-me que deve haver sentido nas coisas feitas ou a se fazer. Muita gente fala-me muita coisa.
O mais louco, à frente, grita 'eu não sou louco, não!' e o que ele vê é somente a fila.
Falaram-me em bom senso. Isso me lembra a médica dizendo-me, anos atrás: "meu pai diz que bom senso não existe porque não existe a expressão mau senso".
A expressão importa. A palavra importa. E o ato. O que não importa é o desprezo do outro por mim, pois isso vai rio a baixo.


Agosto, 10






A mim, pouco coube. Não sei de mim, mas todos os personagens aves eram negros. Eu sei o que vi. Abri a porta da grande gaiola, eram várias espécies a transitar por lá. Nenhuma delas saiu porque, de longe, eu enxerguei tudo precário, mas, de perto, era tudo rico relicário. De qualquer forma, deixei encostado na pilastra mais próxima, um velho guarda-chuva, em pé, para caso de chuva. Ao lado, predominava o verde. Deixei também a porta aberta, pouco me importando se iriam gostar que eu assim agisse ou não.

Agosto, 10

Nota: não é bom tirar um cochilo à tarde.



Preciso de alguma música. Ele pensou em Por Elise, foi bom ouvir por segundos um som antigo, mas troquei pelas músicas de hoje, assim, dessa forma, agarro-me um pouco mais à mim mesma. Perdi o passado e o fio da meada faz tempo... A cadela está inquieta e continua fedendo aos meus pés. Percebi que a mesa de vidro, a varanda, aquela rotina estabelecida é tudo apenas fetiche, mania. Não desagarro de mim porque sou tudo o que realmente possuo. A cadela atrapalha meus passos quando ando pela casa. Meu vazio é maior que o mundo. Nada preenche e para lugar algum quero ir. Andei carente, necessitada, mas isso já passou. Tudo passa. Não passa somente o que insiste vivo a queimar-me.

Eu disse que gostava de diários?

Agosto, 10




O bom de se estar em casa é que, ao se perder, as chances de se achar são mais rápidas. Eu me perdi várias vezes no trânsito, ontem, a gente vai perdendo o vínculo, o que era óbvio torna-se parcialmente nebuloso...

Mas, às vezes, você não está em lugar algum. Não estou escondida na costa oeste, posso me ver por lá, mas, isso só eu posso fazer. Entretanto, também não estou exposta num país úmido, 
onde o clima se fecha sobre a sua cabeça, num abafado bafo. Estou em algum lugar que reservei para mim, e nem sei dizer se é agradável ou não esse espaço.

Dizem-me que é um glamour viver na Califórnia. Deve ser, não sei. De uma certeza, eu tenho: o glamour está em nós, não importa onde.

Agosto, 12






Ele me deu uma carona de moto. Fiz onda para subir nela - eu, cavaleira por alguns anos da minha vida. Ele olhou-me como se eu fosse uma imbecil. Por dentro, eu ria. Ele não teve coragem de diminuir-me com algum comentário, como sempre o vi fazendo, com as mulheres. Ele teve que engolir o que pensava. Subi. Na hora de descer, retomei o charme ou desgraça, pouco me importa. O que me importa é a minha diversão, mesmo que rápida, mesmo que entre lágrimas, mesmo que minha vida esteja uma desgraça. Pelas costas dele senti a sua falta de paciência. Explicou. Eu ri, levantei bem a perna e saí, só para fazer charme, mas dessa vez, foi para os caras do estacionamento que me engoliam com os olhos.

Agosto, esqueci o dia.