Fotografia, Suzana Guimarães

terça-feira, 29 de outubro de 2013

sobre orfandade

Disseram-me que meu pai estava velho... sim. Mas, ouvi algo muito lindo, de uma mulher brasileira, residente na CA, igual a mim, que regula comigo em idade: "a orfandade não vê idade, nem de quem se vai, e nem de quem ficou; que ficou, sem pai ou sem mãe, ou sem os dois". 


Eu disse que gostava de diários?

Outubro, 29 - um mês

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Eis, uma resposta ou uma pergunta.

Por que eu haveria de ter a sua forma de ser, se não somos iguais e se, eu não admiro, repousado sobre o mundo, o seu olhar?


Eu disse que gostava de diários?

Suzana Guimarães.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O idiota

Eu procurava, ao telefone, justificar os atos dele.

Ela: é um idiota!

Eu teimava: foi por isso, foi por aquilo.

Ela: é um idiota.

Eu insistia: foi por a, b e c.

Ela: é um idiota.

Eu: pensando bem, ele pensou, entendeu, equivocou-se, adiantou-se...

Ela: é um idiota.

   
Teimei em procurar razões. Não há. É um idiota.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

AVISO

Se você está em constante desgraça emocional, se você está entre fracos, se seus pulos são sempre em 360 graus... se você está carente, mas não sabe e nem tenta preencher esses buracos; se você não consegue ver início, meio e final, apenas enxerga o que parece ser conveniente pela fresta que medrosamente abre; se você quer se atirar, mas não se atira; se você não aceita os fracassos que toda existência carrega, se você não suporta minha letra, minha cara; se sou apenas uma doida ou burra ou inconsequente; se tudo em mim é demérito para você, se você pensa que pode me manipular... afaste-se, suma, desapareça, não conviva comigo, não aceito perdedores - pois, com minhas perdas, fiz belas artes... fui feita para campeões.


Outubro, 17


Eu disse que gostava de diários?

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cabe em mim, meu bem, toda a minha vida. A falta de medida está nos outros.


Você atende ao telefone, aceita um convite, espera a hora, se apronta, cinco minutos antes, enquanto você escova os dentes, antes de ganhar a rua, o telefone toca. Você é dispensada. 

Chega aqui, chega perto, eu gostaria muito, apesar de toda a afeição que lhe tenho, de todo carinho, eu gostaria muito de esfregar minha escova de dentes em sua cara. Talvez, limpe, talvez, não. O que pouco importa.


Mesmo assim, eu saio, ganho a rua, estou me despedindo, agora é assim, vivo me despedindo desta maldita cidade.





Isso já é passado, ganhei várias ruas, enchi a cara, bebi o meu pai, falei um monte de coisas, tudo tão liquidificado em mim que hoje parece mosaico mal encaixado. Dois voos, três países, e ele disse que eu era independente. Dói nele a independência alheia porque isso dói em escravos. E o escravo pensa, muitas vezes, em escravizar também. 

No aeroporto do Panamá, o pai pergunta-me pelas horas. Atenta ao meu IPad, tentando avisar a minha família sobre minha posição no espaço, ouço-o falando com a filha e comigo... respondo que sou mãe e entendo. A menina fala algo para ele, nem percebo. Ele pensa que percebo. Ele chama a minha atenção, diz em Inglês que ela não podia ouvir a palavra mãe porque sua mãe havia morrido. Fecho o IPad. Pergunto a ela o seu nome. "Isadora". Pergunto a sua idade: "seis anos". Respondo, "conheço uma Isadora e a minha filha tem seis anos." O pai diz que, em São Paulo, antes do voo, saiu para dançar com uma amiga, mas que não havia sido perfeito porque a amiga havia acabado de perder o pai. Respondi: "eu também perdi o meu, estou voltando do enterro dele". Ele pergunta meu nome. Respondo, "Suzana". Pergunto o dele: "Roberto". Eu rio e digo, "o nome do meu marido e um dos dois do meu filho". Abro o IPad para que a menina veja fotografia da minha filha, ele questiona uma das minhas fotos. Respondo, "é minha, escrevo, e costumo usá-la muito". Roberto então abre o seu IPad e imediatamente mostra-me uma linda mulher de cabelos curtos, diz que é uma atriz americana, pergunto o seu nome, ele não sabe. Diz que sou eu. Eu rio. Isadora mexe na mochila de mão dos dois, ele diz para ela parar porque ele é neurótico, "estamos num aeroporto", começo a rir, "também sou neurótica em aeroportos". Pergunto onde ele ficará na Califórnia, "em Anaheim", respondo, "moro lá". Ele diz que bebeu muito na boate com a amiga... eu disse que uma dose de Tequila e três Vodkas com limão e gelo foram pouco para mim, "três copos grandes... parecia suquinho...". Pensar que menti para a minha prima, "foi apenas uma pequena dose de Tequila...". 

A Vodka fez milagres, além de um pouco de dor de cabeça, consegui despedir-me da minha mãe sem desmontar-me em minhas próprias pernas. Bem mais tarde, bem mais tarde, o liquidificado de palavras tentou conter meus pensamentos voejantes, mas eu dormi.

Em Los Angeles, o mural gigante fascinou-me, algo atualmente absurdamente raro: a menina mergulhada em águas claras tenta alcançar uma bola enquanto desço a escada-rolante. Ela sorri e nada, nada, os braços buscando a bola. E tudo some, a menina, a bola, a água, e eu, pela rampa do aeroporto que leva à rua. Mal enxergo, meus olhos estão molhados pelas águas daquela menina. 

Dói nele porque eu aprendi a não mais pelejar; dói nele porque tenho ânsias de vingança, porque converso com estranhos; nada mais me tranca.

Cabe em mim, meu bem, toda a minha vida. A falta de medida está nos outros.

Outubro, 14 


Eu disse que gostava de diários?



(Eu, Suzana Guimarães)

O Roberto do aeroporto viu esta foto.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013


Quantos livros, eu abri neste ano? Quantos deixei para lá? Quantos fechei sem ódio, apenas indiferença ou esquecimento mesmo, borracha em todas as linhas? Qual foi o marcador mais resistente? Qual a capa enganosa? Qual o conteúdo falso? Qual história irritou-me? Qual enredo ficou mal feito e assim se desfez? Quantas folhas saltei? Nenhuma. Quantas expressões registrei no espelho, diante desses livros? Todas, as de todas as estações possíveis, primavera, verão, outono e inverno... e outras mais, que inventei, nos dias cinzas da minha cidade, nos dias de maresia, nos voos cegos, nas recusas, nos cuidados com o meu pai, diante do olhar da minha mãe, em frente a um corpo apetitoso, diante de um prato de ambrosia. Não sou mulher de única estação: enfado.

Eu disse que gostava de diários?

Eu disse que gostava de gente que inventa dia para ser gente?

Outubro, 11

quinta-feira, 10 de outubro de 2013


"The logical song" tocou no rádio do carro, enquanto eu rondava Belo Horizonte, aleatoriamente, caçando qualquer coisa que me agradasse. Era meia-noite e dez. Qualquer coisa, uma recordação, um desejo, uma vontade. Nada. Nada... Nada que pudesse dar um nó, ou mesmo um laço. A música foi o único sinal, certeza de que a lógica mora nas curvas que as linhas certas fazem.

Outubro, 10

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Vou tomar café com a minha mãe. Outubro, 8


Está chovendo, Luís. Faz frio. A sua avó disse que eu deveria trazer roupas de verão, já que estava fazendo muito calor. No máximo, um casaquinho, uma jaqueta jeans. Mas, faz frio porque chove, e eu, eu que tanto queria a chuva nos últimos meses... satisfaço-me de alguma forma, mesmo sentindo a minha mais nova antiga dor, pois, quando seu avô volta aos meus pensamentos, a outra dor revela possuir memória. Sim, existe memória de dor. E você não está aqui para zelar por meu sono. E eu me sinto espremida, esmagada nos ossos e músculos que vão do peito às costas, das costas ao peito. Certa frase também ganhará espaço em minha memória d'alma: "questão de horas". E eu sempre me lembrarei que ele esperou-me em chuvas...



Outubro, 8
Não sou doida, talvez, um pouco doída, sou principalmente normal. Os ditos normais é que são loucos de pedra, literalmente; feitos de pedra.


Outubro, 8

Sobre diários...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Vou tomar café com a minha mãe. Outubro, 7


Agave azul

Eu sou a planta com que se produz a Tequila. Ela se parece com uma babosa misturada com um abacaxi. É venenosa, mas seu coração, não. 


Eu disse que gostava de diários?

Outubro, 7
Diários são relatos minuciosos, eu não escrevo diários... e eu disse que gostava deles? 


Ontem, vi uma senhora fazendo compotas de maçãs, eu já fiz compotas de amor...




Outubro, 7

Calçadas portuguesas...

Calçadas portuguesas são lindas, sempre as percebi, sempre as admirei, mas, por aqui, em Belo Horizonte, não dá mais. Desniveladas, com as pedras soltas, em altos e baixos por raízes de árvores, em ruas mal iluminadas, ameaçam os saltos altos, os carrinhos de bebês e os cadeirantes, levam-me a lembrar e sentir falta das horrorosas e concretas calçadas de uma pacata cidade na Califórnia. 


O que eu disse sobre diários?



Outubro, 7

"Horas roubadas como um celular barato". Paulinho Saturnino Figueiredo

Nas madrugadas, não se pode mais velar o corpo de um morto nas funerárias em Belo Horizonte porque as famílias e os amigos presentes estão sendo roubados por gangues. O corpo fica sozinho, trancado em uma sala à luz de uma bruxuleante vela... 


Não nos é mais permitido... a corja não permite.

Eu disse que gostava de diários? 

2013




sábado, 5 de outubro de 2013

Diários 'nasceu' quando eu estava no hospital com meu pai, em agosto passado, dois meses atrás. Estava pensando, um dia, descobrirei que ele me salvou, os diários, do sufocamento, da impotência, e me conduziu a uma total liberdade de expressão, a uma total falta de desejo de apreciação alheia, aprovação, foi/é meu maior ato de independência.

Outubro, 5

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Amanhã, é a missa de Sétimo Dia do meu pai. Hoje, peguei a minha mãe pela mão e a levei a um salão de beleza, para que o ritual de força das mulheres da sua família não se quebre.

Outubro, 4
Depois da chuvarada, torcerei alguns panos.

Eu disse que gostava de diários?

Outubro, 4
Está chovendo, Luis Meneghini, penso em você e em nossa louca vontade de cheirar chuva.

Outubro, 4
 
... no deserto, resta-nos somente o som que o telefone celular faz...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Após me despedir dela, entrei em uma farmácia e comprei esmaltes. Ainda há tempo, sempre haverá tempo, até o último suspiro, e, também além dele, sempre haverá tempo para exercer a arte de se bem amar.

Outubro, 3

Eu disse que gostava de diários?
Encontrei-me com uma ex-colega de faculdade. Nós não nos víamos há 25 anos. Deus me deu esse presente. Vê-la forte, linda, sorrindo, feliz, feliz, para mim foi um bálsamo. E eu voltei aos 17, 18, 19 anos... um tempo feliz, uma época branca, leve, lotada de sonhos. Minha colega tem nome de guerreira: Walquíria.



Diários, por que não?


Outubro, 3

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Escrevi "sou engodo", dias atrás. E hoje, o que sou? Já venho deixando de ser há algum tempo... passei a ser estrangeira, passei a ser escritora. Fui deixando-me de lado, devagarinho... por tantas razões que resultou tudo em motivo algum. Fui à farmácia, trocar compras feitas para o meu pai por outras coisas. Até então, o engodo que era eu forçava-me a deduzir que ele estaria em algum canto da casa ou no hospital, mas ele não está em lugar algum que eu possa ver. Até então, o engodo que era eu pegou seus óculos de grau para guardar de recordação, algumas peças de roupa... até então, eu acreditava que não seria fácil, mas seria suportável. Não é. Dói tanto que o engodo se foi. Parada na farmácia, o chão parecia brilhar demais, as pessoas a incomodar demais. Senti-me vazia, vazia, um saco de pano a murchar... sem um fio de concentração, razão, qualquer tipo de entendimento. Um menino de três ou quatro anos parou o meu carrinho, quando eu saía da fila do caixa, e comentou que ele estava muito cheio, e ele tentava abraçar a sacola. Fiquei forçando um sorriso para ele e tentei dizer algumas coisas, mas eu queria mesmo era me ver livre do menino, do carrinho, daquele local, do caminho.

Meu pai disse-me, no dia seguinte ao sepultamento da minha avó materna, porque eu comentei que todos estavam, sentados à mesa, muito falantes, comilões e barulhentos, ele disse-me, "a vida se impõe". 

Pai, a vida se impõe com força demais, tanta, mas tanta, que eu perdi as poucas referências, e preciso com urgência encontrar alguma, para deixar de ser engodo, para deixar de ser fantasma, para ocupar o enorme espaço que você deixou.


Outubro, 2