Fotografia, Suzana Guimarães

sábado, 28 de dezembro de 2013

VAI...


by LRGM

Vai, ano, vai... como essa breve música aos meus ouvidos, 

a sombra que me assusta na jarra de cristal, 

nas miragens que toquei... 

vai, vai... eu muito pedi e quis, agora, vai, completa o próximo, dá sua mão a ele, pois amanhã eu serei a mesma de hoje, 

porém, delicada promessa, pedido concedido, o sonho concebido. 



Dezembro, 28

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Quinze


Acabo de receber a notícia da décima quinta morte ocorrida em 2013, dentre familiares, amigos e conhecidos. Notícia que chega da forma mais simples possível. Alguém chega e conta. E eu conto e eu ainda não havia vivido isso, não me recordo de nada igual. Fico triste, aumenta o meu luto. E há quem pensa que números consolam, não, não consolam, incomodam. 


Dezembro, 26

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

CRITERIOSA


Criteriosa. Acabei de escrever essa palavra. Linda, por sinal! Em 2014, com absoluta certeza, serei bastante criteriosa em relação à amizade. Isso significa, mais chata ainda.

Dezembro, 25

Eu disse que gostava de diários?

sábado, 21 de dezembro de 2013

2013

E este ano há de fazer-se inteiro, de janeiro a dezembro, sem paradas para descanso. E este ano há de se fazer espelho, livro aberto, segredos descobertos. E, passagem.

Eu disse que gostava de diários?

Dezembro, 21

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Do que sinto falta: DAS COISAS ou DOS 'TREM'


1. Guaraná
2. Coxinha de galinha com catupiry
3. Praia com água quente
4. Barzinhos na praia
5. Cheiro e barulho de chuva
6. Cheiro de mato
7. Na cozinha e nos banheiros, ralos
8. Área de serviço
9. Tanque
10. O som da língua
11. Salão de beleza
12. Bem-te-vi
13. Antena 1 FM, no carro
14. Bolinho de bacalhau
15. Todos os doces da Boca do Forno
16. Festas
17. "Parabéns pra você..."
18. Comida baiana
19. Mercado Central de Belo Horizonte
20. Mandioca frita, belisquetes

Suzana Guimarães.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

TRINTA CURIOSIDADES SOBRE MIM



(Suzana Guimarães, arquivo pessoal)



TRINTA CURIOSIDADES SOBRE MIM

Para Fabi Anselmo


1.Eu ia me chamar Letícia. 
2.Não tenho medo da morte.
3.Três homens com nomes começados com a letra J salvaram a minha vida, em três situações distintas.
4.Sempre gostei de olhos claros e nomes italianos, casei-me com um assim, assim.
5.Tive quatro gatos persas.
6.Eu queria saber falar em Francês.
7.Beijava um menino, nos Carnavais em Caratinga, Minas Gerais, a cara do Chico Buarque. Nasci em Caratinga, mas nunca morei lá.
8.Meu sonho de menina era conhecer Katmandu, Nepal.
9.Atualmente, por curiosidade, quem desenha as minhas sobrancelhas, com linha de costurar roupa, são umas nepalesas… talvez, eu esteja no caminho para lá, elas inclusive já me convidaram…
10.Tenho dezoito cortes no corpo.
11.Gosto de comer pão com água.
12.Adoro o nome Ana. Se eu tivesse cinco filhas, as cinco seriam Ana...
13.Vinho, gravidez e sol são meus afrodisíacos.
14.Dirigir acalma-me.
15.Não sei andar de bicicleta, mas sei montar um cavalo, fiz hipismo por três anos.
16.Não sei assoviar.
17.Gosto de sutiã e calcinha da mesma cor.
18.Botas são sexy.
19.Gosto de homem com barba aparada.
20.Não gosto de conversar quando acordo.
21.Gosto das madrugadas.
22.Queria ter um vizinho que estudasse piano.
23.Aprendi a arrumar malas após os 35 anos.
24.Não tenho senso de direção.
25.Só tenho celular porque tenho filhos.
26.Tenho sonhos proféticos desde os 13 anos.
27.Não tenho medo de sentir dor, por isso luto jiu jitsu e faço depilação a laser.
28.Aprendi a nadar aos 30 anos.
29.Tive um cachorro que viveu 17 anos.
30.Não sei dormir sem calcinha.


Nota: Publicado anteriormente em 4 de dezembro de 2013, no Facebook.

domingo, 15 de dezembro de 2013

  • Sabe, Dário Banas, descobri em 2013 que é tolice insistir com certas coisas e pessoas. O que é para ser, o que é, tem força, não fica aos tropeções, parando em desvios, não precisa de muita reza. Percebi também que não sabemos colocar ponto final e que insistimos mesmo sabendo que há algo errado, oculto. Sabe carro com defeito oculto?
  • Suzana Guimarães Carro com defeito oculto, Dário Banas, te deixa na mão inúmeras vezes e ninguém descobre a razão.



Eu disse que gostava de diários?

Dezembro, 15

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


Escrevi sobre o meu terceiro ano na América e também sobre o quarto. Em 20 de janeiro, publicarei o texto sobre os cinco anos. Ele se chamará 'Impagável'. 

Eu quis ser promotora de justiça, eu quis ser juíza, dona de cartório, eu queria ter uma loja, um espaço cultural... eu quis um tanto de coisa, e a vida quis outras. Eu nunca quis conhecer a América, nunca quis ser estrangeira, mas conheci, estou e sou. O nome disso é responsável aventura (eu tenho crianças) e é absolutamente impagável.

Dezembro, 11

terça-feira, 10 de dezembro de 2013


Não digo mais nada, escrevo
Não sinto mais nada, respiro
Tudo que foi, bastou
por isso, se foi.

Um ano todo num único ponto final
numa forma ortodoxa, óbvia demais, burra
de onde escaparam-me pequenos delírios, sobreviventes.

Teimosia, teimosia, teimosia...

Na dor, a cegueira aumenta e a lucidez afasta-se. 
Talvez, quem sabe, eu seja apenas a expectativa de um sussurro ou a grandeza de um jamais despertado idílio, 
sonho dos loucos.
Ou tudo, ou nada, o número que me segue, o sete.
E eu queria apenas o médio, o mais ou menos...

Talvez, quem sabe, não fosse para mim por ter sido feita para extremos...
como se nos coubesse a escolha.
Que ela existe, existe, depois que lhe entregam o traço marcado.

Alegria, alegria, alegria...

Preciso ver o mundo pelas sobras, pois foi o que restou, não o que perdi.
E, o que restou é o que importa.
Resta-me o silêncio dos vencidos,
mas, intrínseca e resistente, uma vontade maior desdobra-se

E eu respiro e escrevo 
Não sinto. Não almejo. Não traço metas
Permaneço. 


Dezembro, 10


Suzana Guimarães

domingo, 8 de dezembro de 2013


Só faltava chover, chuva de fazer barulho. Apenas isso e o cenário seria perfeito, eu, no meio dele, cheia de preguiça - o primeiro passo para a cura. Parece tudo tão absolutamente certo! Mas, na casa amontoam-se roupas pelos cantos, um vendaval passou no quarto das bonecas, as plantas imploram cuidados. Uma lista por fazer dobrou-se em duas e eu vejo tudo inquestionavelmente certo. No piscar de seu olhar, sarei. 

Eu pouco sei sobre diários... diários são meus renascimentos.


Novembro, 27

Do outro lado da mesa, ela olhou-me com ódio. Pois é, querida, eu deveria ter pensado, é isso mesmo o que você vê e bem mais, mas, não, nem pensei, fiz ar blasé e parti.


Eu disse que gostava de diários?

Onde você estiver, meus Parabéns...

(desconheço autoria da foto)

Você faria 88 anos, hoje, 8 de dezembro, mas não o fez... porém, dou-lhe meus parabéns, pelo homem vitorioso e valente que foi, que ignorou obstáculos, mesmo com enormes dificuldades.

Para você, a cor que tanto gostava...

Dezembro, 8

domingo, 1 de dezembro de 2013


Outro dia, escrevi que eu não conversava na América simplesmente porque não queria, e, não, pelo meu Inglês ruim. Mas, enquanto escrevia, eu me questionava, "seria mesmo?". Sim, não converso porque não quero; a resposta veio outro dia, numa festa. 

Festa de aniversário onde a grande maioria só fala Inglês e faz Jiu Jitsu... e eu perguntando-me o que faria por lá, em um lugar onde o assunto predominante seria esportivo demais... me esqueci de que também luto, deslizes em nossas hipocrisias, na minha, claro!

Meu filho sentou-se ao lado de um colega da idade dele e a mim restou uma cadeira na ponta da mesa. Do outro lado dela, um casal acomodou-se em duas e deixou uma vazia, a que estava à minha frente. Meu filho disse, "a cadeira que ninguém se sentará; será?".

Estávamos numa pizzaria brasileira, em um rodízio de pizza, pelo menos, o Guaraná, a comida e a presença do meu filho seriam o bastante, eu pensava, e contava mentalmente um relógio interno, de horas, a correr lentas e pesadas...

Chegou um colega meu, nunca havíamos conversado, sentou-se na 'desprezada' cadeira. Comeu os pedaços de pizza deliciando-se, ouviu-me, falando em Português com meu filho, começou um assunto, não me lembro o quê, disse entender Espanhol por causa do trabalho dele, disse que considerava o Português, Língua muito bonita... quando me dei conta, eu falava o meu horroroso Inglês em bom tom, errado, eloquentemente, ria, ria, esqueci que havia uma festa acontecendo à minha direita, pela longa mesa estendida. Falei tanta coisa. Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas, meu tio levando um tiro na perna, na Itália; o 'romeu e julieta' na comida mineira, a cobra Sucuri que na Colômbia chama-se Piton ou uma é parenta da outra... Liberdade, fonética, objeto direto, adjetivo, verbo e sujeito, meus estudos, a ideologia dele, o sentido que ele vê na vida... 

Sim, quando eu quero, eu falo. Apenas me dei ao luxo da dispensa, e, muitas vezes, ainda uso o recurso do "no English".

Não consigo mais perder meu tempo, não posso mais ficar tentando engolir goela abaixo gente chata, sem papo, um porre, gente dose... 

A esses, ainda cabe também o nosso querido "oi, tial!". E, fui! E, vamos! E salve quem tem cabeça para pensar e boca para falar! 

Eu disse que gostava de diários? 


Dezembro, 1

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Eu era franzina, um fiapo de gente, brava, mas esmirrada. Na escola e na intimidade daquela família enorme que todos nós temos, lado paterno e materno, primos próximos, tias distantes, e outros não tão assim, nada ouvi sobre alguma beleza em mim, quando podiam, comentavam sobre o temperamento ruim, "igual ao pai". Aos treze anos, minha mãe percebeu um certo desajeito meu ao andar e decidiu-se e empenhou-se em dar-me algum verniz. Fiz dança, artes e ouvia elogios por parte dela, mas eu ainda não havia decidido sobre isso. Aos dezesseis anos, por minha conta, não me lembro o dia ou os dias, a época, decidi procurar em mim tudo o que era belo e dar ênfase a isso. Desde então, ninguém mais precisa dizer-me qualquer coisa que seja. Esse início de vida - talvez seja a causa, talvez, não - me fez gostar de poucos. Trato a todos muito bem, mas gosto de pouquíssima gente.

Estou aqui pensando, se quem se banha em águas de alegrias diárias me lê ou me vê, ultimamente, deve estar se coçando de necessidade de mais água e sabão, pois, eu não paro. Venho em lamúria e não é de hoje, mas "o ano não foi nenhuma pera doce", frase de uma amigo escritor.

Isolo-me mais a cada dia que passa, por gosto, e seleciono cada vez mais. Poucos, em solo americano, considero meus, meus em confiança... 

E, neste ano que parece não acabar, mesmo com a minha mãe dizendo, "ele está no fim", e eu sabendo que não, e isso não é pessimismo, é sensitivismo, recebo a notícia de que um amigo que gostei no primeiro olhar, no primeiro contato, e que, por mim, sentiu o mesmo, e, nós dois bradamos orgulhosos "não falem mal perto de mim porque grande é a admiração", e ele que nem todo dia eu vejo, mas, que quando vejo, sei que posso confiar, ele teve um ataque cardíaco e está num centro de tratamento intensivo, isso, de ontem para hoje.

Hoje, mais cedo, enquanto eu dirigia na longa estrada que leva ao consultório do meu médico, peguei-me admirando a paisagem, que é belíssima, e pensando em 'daisies', margaridas brancas, inúmeras, um tanto enorme que enchia além da visão possível... 

Tenho horror da turma do banho eterno de felicidade, aquela gente que diz que acorda e dorme feliz. Prefiro pensar em 'daisies', prefiro fazer um tapete delas, para esperar o meu amigo se levantar e nele passar, pois ele me deve um almoço, um café, um meio de tarde para desfrutarmos juntos.

Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 26

quinta-feira, 21 de novembro de 2013


Uma dádiva, chove desde ontem. O que era rotineiro, e muitas vezes desconfortável e inoportuno, agora, para mim e meu filho, é milagre. Chuva fina e constante, nem de longe assemelha-se às tempestades tropicais, mas acalma. Então, por isso, por mim, o compromisso das 11h, vou pular, darei boa desculpa. Às 3h, tenho outro, inadiável, daí, neste tempo que tenho, estarei comigo. Abri as portas de vidro da varanda, coisa que raramente faço, e uma janela, para correr o ar. Cansou-me o barulho falso do ar-condicionado, fingindo frescor e chuva, da mesma forma que cansei de quem me esgota e finge. Eu preciso de delicadezas, e não de dedos apontados, lição de moral, falas altas e de pragas desferidas, hipocritamente vestidas com a cara do bem. As pessoas não sabem, mas, cedo, cedo, eu conheci o olhar do mal, naquela figura que sequer disfarçava de tão má... 

É como se eu estivesse doente. Eu estou doente; na alma. Tristeza e decepção fazem parte de nossas vidas, mas o ato repetitivo, a desgraça que parece se alongar durante as madrugadas, procriando-se em outras tantas, corrói o mais valente dos indivíduos. 

Hoje, vou olhar os anéis de família, recordar e sentir o bem que a chuva traz.

Novembro, 21

Os bichos da casa da minha mãe estão morrendo, desde antes da morte do meu pai, e continuam a morrer. 


Novembro, 20




Ontem, o meu professor de Jiu Jitsu disse que eu não estava lutando jj, mas, sim, gladiando, bufando, trincando os dentes, gastando força... talvez, não sei, não haja mais espaço para essas coisas em minha vida, as coisas da gentileza. Tenho medo de endurecer de vez, trincar, quebrar e acabar.

Novembro, 20 e o ano não acaba, como se isso mudasse a verdadeira órbita.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Eu disse que gostava de diários? Não, eu nunca disse nada.


Onde está escrito que eu tenho que gostar de você só porque você gosta de mim? Durante toda a minha vida, fui obrigada a pegar muitos dos meus bons sentimentos e lacrá-los ou neles dar descarrego ou deles me afastar apressadamente, antes que virassem doença. A gente gosta de quem a gente quiser, mas a recíproca nem sempre é verdadeira. Sinto-me mal com a persistência de amor insistido.


Eu disse que gostava de diários? Não, eu nunca disse nada.

Novembro, 19

segunda-feira, 18 de novembro de 2013



by SCG

Fato: o ano terminou para mim, estou no vácuo que os ventos deixam.

E eu disse que gostava de diários?

domingo, 17 de novembro de 2013

By  Suzana Guimarães
Hoje, 49 dias após a morte do meu pai, eu consegui falar dele, ao telefone, com a minha mãe, sem chorar. Ontem, eu chorei um pouco, de repente, e sei que amanhã chorarei inúmeras vezes e por todos os amanhãs, mas, hoje, não.

Hoje, fez um dia lindo, talvez, dias lindos já tenham passado por mim, nos últimos meses... e eu não pude vê-los. Não me importo. Sou de um mundo onde o sentir é muito.

Possuo uma senha que tem o nome do meu pai no meio dela. Meu filho, outro dia, me viu digitando-a e disse: "Você precisa parar com isso, para parar de se lembrar e sofrer." Respondi: "Totalmente impossível esquecê-lo, eu sempre me lembrarei dele, a gente não esquece pai e mãe."




Novembro, 17

sábado, 16 de novembro de 2013

Se dispenso pessoas importantes da minha história, por que não dispensar os menores em significado para mim?

Novembro, 16



Sempre que eu pensar em amolecer com quem não merece, de agora em diante, lembrarei desta época, da morte do meu pai, ficou como um sinal, um limite, uma linha, um aviso de alerta.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

solidão, depende de tamanho e número

Eu gosto de solidão a sós, e detesto solidão a dois.

Novembro, 12 
O ato desmedido retira o valor do brilho; vira um farol alto nos olhos, coração, sentidos e sentimentos a incomodar e mais nada.

Novembro, 11

domingo, 10 de novembro de 2013

Sobre maridos

Eu, alongando, para fazer jiu jitsu. Mas, aqui em casa, não há tempo nem para isso... e ainda não fiz 50% do serviço adoravelmente doméstico e nem as luzes... estive pensando, fiquei 4 meses e meio transitando num mundo à parte, e, marido não vê alimentos estragando dentro de armário. Fica a pergunta, além de pagar contas, marido serve para mais o quê? 

P.S.: não estou falando de pai, só de marido, e nem estou falando de homem. O juiz diz: "eu vos declaro marido e mulher". Então, para que servem os maridos, além de pagar contas? 


E eu disse que gostava de diários?

Novembro, 10

(desconheço autoria da fotografia)

sábado, 9 de novembro de 2013

MORENA

Amanhã, farei luzes loiras no meu cabelo que pintei de marrom escuro. Meu filho disse que não gostou, minha filha, também. Ela disse que nem sabe o que é morena.

Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 9

Disseram-me para eu tomar algum remédio para Depressão. Eu não sei, penso que é só tristeza, mas, na dúvida, há o tatame, e nele, eu ganho serotonina. Que Deus me guarde e aos anjos digam 'amém'. No mais, tratar de comer mais banana, tomate, chocolate e tomar vinho. 

Novembro, 8

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Quem anda por este deserto, sabe de mim. Meus colegas também sabem de mim. Sumi das aulas de Inglês, larguei o jiu jitsu, estou comendo salsicha em lata como se fosse nutritivo, meu sono aumentou, e também o meu cansaço. Hoje, eu apareci por lá, esqueci de levar minha pasta com livros e cadernos. Pedi desculpas ao professor, ele não se importou, sorriu. Na saída, dois colegas pararam para perguntar como eu estava. Eu falei da geladeira que pifou. Falei também da minha solidão, xinguei o técnico que está enrolando. No estacionamento, encontrei-me com Mrs. M., não nos víamos desde junho passado. Desci do carro para falar com ela. Dizem que os americanos são frios... pois, de cara, ela me deu uns três abraços, após minhas tristes notícias, mais uns três ou quatro. Não tem povo ou raça fria, tem gente fria, é diferente. 

Dias atrás, eu disse que não queria que meu luto piorasse e nem melhorasse. Eu disse a ela que ele piorou. Ela tirou os óculos escuros, olhou-me nos olhos e disse que sim, sim, com o tempo, piora. Que eu me fiz forte por causa da minha mãe, que eu precisava suportar a viagem de ida e volta. 

Agora, leio sobre desertos dentro de nós. Há um em mim e eu gostaria de pedir para ninguém nele caminhar.


Novembro, 5

domingo, 3 de novembro de 2013

Olhos Azul Brandeis Blue



Ele veio andando em minha direção e eu só percebi a cor quando ele me olhando, perguntou: "Mrs. Meneghini?". "Not, not... Mrs. Guimarães", respondi. Meu Deus, eu vi a encarnação da beleza: um par de olhos azuis, muito mais densos e brilhantes que a mais bela das Safiras, azul quase invenção, quase mentira, azul Brandeis Blue, que eu até então não conhecia. Azul da cor do pequeno retângulo do Google, mandando fazer Login, e do "Enviar", da cor da gominha de cabelo da minha filha, que acabo de ver em cima da pia do banheiro. Nem sei o que ele falou para mim e para o meu filho, só sei que eu disse, "Your eyes are pretty!", e, enquanto dizia, tola me sentia porque jamais conseguiria definição completa. Ele riu e agradeceu e, mais tarde, meu filho comentou: "E eu que fiquei um ano tendo aulas com ele e vendo aqueles olhos...".

Azul da paleta de tintas que o artista não pinga, espreme e esparrama desmedidamente. 

Azul hipnótico, deixou-me tonta, ainda bem que não me perguntou mais nada...


Meu Deus ainda desenhou sobrancelhas e cabelos negro do carvão, da mais escura de todas as noites...

e parece que ele nem sabe...



Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 3
Quando me perco no trânsito, minha filha de seis anos, sempre em único tom, seco, baixo e para dentro, como se fosse "bosta", solta única palavra: "lost". 

Diários... e eu rio.

Como vai você?

Como vai você, pai? Estivemos tanto tempo, eu, bem menos, cuidando de você, e agora que o perdi de vista, ficou o incômodo, um enorme vazio, eu preciso saber se você está bem.

Suzana

Novembro, 3

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vida de estrangeira

Em meu primeiro ano, na América do Norte, morei em três lugares diferentes, em uma mesma cidade; sozinhos, nós quatro, marido, dois filhos e eu fizemos as mudanças.

Se meus filhos adoecem, como hoje, fico em casa.

Se a geladeira quebra ou o banheiro vaza, fico em casa.

Se tenho algum compromisso com meu marido, mas não posso levar os filhos, ficamos em casa ou só vai um dos dois.

Quando um de nós precisou passar por uma cirurgia, salvo uma exceção, permanecemos sozinhos.

Não posso ter um chefe, ele me dispensaria. Não posso ter amigos, pois eles vivem muito longe.

Perguntaram-me, na faculdade, se tenho amigos. Demorei longo tempo para responder. Fiquei olhando para o rosto da pessoa, pensando, pensando...

Se tenho dores físicas, se tenho algum mal estar, isso não implica em não levar e buscar os filhos em suas escolas.

A praia é boa, mas a água é gelada.

Não, eu não aprendi cedo a viver só, eu disse isso para a colega da faculdade, mas, menti. Eu já nasci sabendo viver sozinha e gostava. Tentei ser disponível, mas descobri que a rua era de mão única, daí, busquei e alcancei a indisponibilidade sem culpas.

Algumas pessoas não dirigem porque não querem, têm medo ou sei lá o quê, graças a Deus, sempre gostei, porque, sem carro, em minha cidade e adjacências, é impossível a locomoção.

A praia é boa, a água é gelada, mas não ando pelas ruas morrendo de medo de assaltos. Se acontecer, foi um ato isolado, não um fato corriqueiro.

Eu já tenho um razoável Inglês, mas percebi que não falo muitas vezes porque não quero, é, atualmente, ótima desculpa.

Por incrível que possa parecer, apesar da solidão, da falta da saída para um café, para o cinema, para a casa da minha mãe, apesar da falta de muitas coisas que pareciam sem importância, gosto de ser estrangeira.

É o que mais me identifica, desde sempre, a qualidade ou o defeito de ser estranha. Essa condição só perde para a maternidade, grande surpresa em minha vida, a melhor delas, incomparável, indizível.

Então, fico aqui, com meus filhotes, antes que eles cresçam e também decidam ser estrangeiros. E, nos campos, os trigos se fazem sozinhos...


Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 1

terça-feira, 29 de outubro de 2013

sobre orfandade

Disseram-me que meu pai estava velho... sim. Mas, ouvi algo muito lindo, de uma mulher brasileira, residente na CA, igual a mim, que regula comigo em idade: "a orfandade não vê idade, nem de quem se vai, e nem de quem ficou; que ficou, sem pai ou sem mãe, ou sem os dois". 


Eu disse que gostava de diários?

Outubro, 29 - um mês

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Eis, uma resposta ou uma pergunta.

Por que eu haveria de ter a sua forma de ser, se não somos iguais e se, eu não admiro, repousado sobre o mundo, o seu olhar?


Eu disse que gostava de diários?

Suzana Guimarães.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O idiota

Eu procurava, ao telefone, justificar os atos dele.

Ela: é um idiota!

Eu teimava: foi por isso, foi por aquilo.

Ela: é um idiota.

Eu insistia: foi por a, b e c.

Ela: é um idiota.

Eu: pensando bem, ele pensou, entendeu, equivocou-se, adiantou-se...

Ela: é um idiota.

   
Teimei em procurar razões. Não há. É um idiota.


Por Suzana Guimarães

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

AVISO

Se você está em constante desgraça emocional, se você está entre fracos, se seus pulos são sempre em 360 graus... se você está carente, mas não sabe e nem tenta preencher esses buracos; se você não consegue ver início, meio e final, apenas enxerga o que parece ser conveniente pela fresta que medrosamente abre; se você quer se atirar, mas não se atira; se você não aceita os fracassos que toda existência carrega, se você não suporta minha letra, minha cara; se sou apenas uma doida ou burra ou inconsequente; se tudo em mim é demérito para você, se você pensa que pode me manipular... afaste-se, suma, desapareça, não conviva comigo, não aceito perdedores - pois, com minhas perdas, fiz belas artes... fui feita para campeões.


Outubro, 17


Eu disse que gostava de diários?

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cabe em mim, meu bem, toda a minha vida. A falta de medida está nos outros.


Você atende ao telefone, aceita um convite, espera a hora, se apronta, cinco minutos antes, enquanto você escova os dentes, antes de ganhar a rua, o telefone toca. Você é dispensada. 

Chega aqui, chega perto, eu gostaria muito, apesar de toda a afeição que lhe tenho, de todo carinho, eu gostaria muito de esfregar minha escova de dentes em sua cara. Talvez, limpe, talvez, não. O que pouco importa.


Mesmo assim, eu saio, ganho a rua, estou me despedindo, agora é assim, vivo me despedindo desta maldita cidade.





Isso já é passado, ganhei várias ruas, enchi a cara, bebi o meu pai, falei um monte de coisas, tudo tão liquidificado em mim que hoje parece mosaico mal encaixado. Dois voos, três países, e ele disse que eu era independente. Dói nele a independência alheia porque isso dói em escravos. E o escravo pensa, muitas vezes, em escravizar também. 

No aeroporto do Panamá, o pai pergunta-me pelas horas. Atenta ao meu IPad, tentando avisar a minha família sobre minha posição no espaço, ouço-o falando com a filha e comigo... respondo que sou mãe e entendo. A menina fala algo para ele, nem percebo. Ele pensa que percebo. Ele chama a minha atenção, diz em Inglês que ela não podia ouvir a palavra mãe porque sua mãe havia morrido. Fecho o IPad. Pergunto a ela o seu nome. "Isadora". Pergunto a sua idade: "seis anos". Respondo, "conheço uma Isadora e a minha filha tem seis anos." O pai diz que, em São Paulo, antes do voo, saiu para dançar com uma amiga, mas que não havia sido perfeito porque a amiga havia acabado de perder o pai. Respondi: "eu também perdi o meu, estou voltando do enterro dele". Ele pergunta meu nome. Respondo, "Suzana". Pergunto o dele: "Roberto". Eu rio e digo, "o nome do meu marido e um dos dois do meu filho". Abro o IPad para que a menina veja fotografia da minha filha, ele questiona uma das minhas fotos. Respondo, "é minha, escrevo, e costumo usá-la muito". Roberto então abre o seu IPad e imediatamente mostra-me uma linda mulher de cabelos curtos, diz que é uma atriz americana, pergunto o seu nome, ele não sabe. Diz que sou eu. Eu rio. Isadora mexe na mochila de mão dos dois, ele diz para ela parar porque ele é neurótico, "estamos num aeroporto", começo a rir, "também sou neurótica em aeroportos". Pergunto onde ele ficará na Califórnia, "em Anaheim", respondo, "moro lá". Ele diz que bebeu muito na boate com a amiga... eu disse que uma dose de Tequila e três Vodkas com limão e gelo foram pouco para mim, "três copos grandes... parecia suquinho...". Pensar que menti para a minha prima, "foi apenas uma pequena dose de Tequila...". 

A Vodka fez milagres, além de um pouco de dor de cabeça, consegui despedir-me da minha mãe sem desmontar-me em minhas próprias pernas. Bem mais tarde, bem mais tarde, o liquidificado de palavras tentou conter meus pensamentos voejantes, mas eu dormi.

Em Los Angeles, o mural gigante fascinou-me, algo atualmente absurdamente raro: a menina mergulhada em águas claras tenta alcançar uma bola enquanto desço a escada-rolante. Ela sorri e nada, nada, os braços buscando a bola. E tudo some, a menina, a bola, a água, e eu, pela rampa do aeroporto que leva à rua. Mal enxergo, meus olhos estão molhados pelas águas daquela menina. 

Dói nele porque eu aprendi a não mais pelejar; dói nele porque tenho ânsias de vingança, porque converso com estranhos; nada mais me tranca.

Cabe em mim, meu bem, toda a minha vida. A falta de medida está nos outros.

Outubro, 14 


Eu disse que gostava de diários?



(Eu, Suzana Guimarães)

O Roberto do aeroporto viu esta foto.