Fotografia, Suzana Guimarães

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Vida de estrangeira

Em meu primeiro ano, na América do Norte, morei em três lugares diferentes, em uma mesma cidade; sozinhos, nós quatro, marido, dois filhos e eu fizemos as mudanças.

Se meus filhos adoecem, como hoje, fico em casa.

Se a geladeira quebra ou o banheiro vaza, fico em casa.

Se tenho algum compromisso com meu marido, mas não posso levar os filhos, ficamos em casa ou só vai um dos dois.

Quando um de nós precisou passar por uma cirurgia, salvo uma exceção, permanecemos sozinhos.

Não posso ter um chefe, ele me dispensaria. Não posso ter amigos, pois eles vivem muito longe.

Perguntaram-me, na faculdade, se tenho amigos. Demorei longo tempo para responder. Fiquei olhando para o rosto da pessoa, pensando, pensando...

Se tenho dores físicas, se tenho algum mal estar, isso não implica em não levar e buscar os filhos em suas escolas.

A praia é boa, mas a água é gelada.

Não, eu não aprendi cedo a viver só, eu disse isso para a colega da faculdade, mas, menti. Eu já nasci sabendo viver sozinha e gostava. Tentei ser disponível, mas descobri que a rua era de mão única, daí, busquei e alcancei a indisponibilidade sem culpas.

Algumas pessoas não dirigem porque não querem, têm medo ou sei lá o quê, graças a Deus, sempre gostei, porque, sem carro, em minha cidade e adjacências, é impossível a locomoção.

A praia é boa, a água é gelada, mas não ando pelas ruas morrendo de medo de assaltos. Se acontecer, foi um ato isolado, não um fato corriqueiro.

Eu já tenho um razoável Inglês, mas percebi que não falo muitas vezes porque não quero, é, atualmente, ótima desculpa.

Por incrível que possa parecer, apesar da solidão, da falta da saída para um café, para o cinema, para a casa da minha mãe, apesar da falta de muitas coisas que pareciam sem importância, gosto de ser estrangeira.

É o que mais me identifica, desde sempre, a qualidade ou o defeito de ser estranha. Essa condição só perde para a maternidade, grande surpresa em minha vida, a melhor delas, incomparável, indizível.

Então, fico aqui, com meus filhotes, antes que eles cresçam e também decidam ser estrangeiros. E, nos campos, os trigos se fazem sozinhos...


Eu disse que gostava de diários?

Novembro, 1

2 comentários:

  1. Parece que represar foi foi bom, a represa inundou e começa a vazar aos poucos, o que deve ser melhor que uma enxurrada. Sei que não é uma solidão absoluta, mas ainda que fosse, eu te pergunto: Quem disse que a solidão precisa ser triste? Um beijo. (Estou achando que o mergulho nessas aguas vai ser ótimo).

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  2. Sāo tantas as águas, Dário... abençoadas e más.

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