Fotografia, Suzana Guimarães

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

sobre um rei que não era rei...

Por minha livre vontade, eu o coroei. Dei-lhe poderes. Dei-lhe certezas e tamanho. Eu o ensinei a ser rei e conselheiro, num tempo em que todos o viam, o bobo da corte. Ou o estúpido, ou o indelicado, ou o grosseiro e mentiroso cavaleiro do cavalo manco.
 
Eu o coroei e fui cuidar dos meus jardins, de nossos jardins, e, distraída, deixei-o livre.
 
Eu, pássaro, feita de voos; eu, árvore, sem idade, em grossas raízes, nunca me importei muito com o mundo externo. Eu queria enxergar por além das cores das flores. Por sentir-me livre, dei-lhe liberdade, junto com o poder. Mas, ele nunca foi meu rei.
 
Ele nunca foi meu rei e eu nunca me importei...
 
Até que um dia, esse rei, que não era na realidade um rei, apenas coroado por mim, viu que minhas asas poderiam não ser assim tão longas e sem fim... e que as raízes um tanto curtas ou quebradiças ou desgraçadas...
 
Eu o coroei e ele depreciou-me, "suas asas são frágeis e sua copa e raízes, e sua sombra e seus ventos e seus chãos e céus... tudo pouco, muito pouco", e ele riu.
 
A coroa caiu. O cavalo manco reencontrou o caminho de casa. O rei permanece sentindo-se rei e eu morri e renasci, para novamente morrer e renascer...
 
porque eu sei ser sem precisar ter, porque meu caminho nunca foi meu, e, a mim, sempre me atraiu apenas a beleza das flores após o amassar da terra suja.
 
 
Setembro, 2

 

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