Fotografia, Suzana Guimarães

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os diários não se perderam, apenas o tempo. Tudo muito acumulado em mim, em camadas. Depois, irei soltando, quando por debaixo daquela árvore eu não mais passar. Querendo ou não, os dias se sucedem e as pequenas folhas que hoje bailaram nos ares para mim irão se perder, ou, perdidas já estão, deixaram um adeus silencioso, disseram-me coisas, mas eu ainda não sei o quê. Mais tarde, elas se soltarão da minha lembrança, na hora em que eu abrir uma pequena e oportuna brecha.

Eu disse que gostava de diários? 
Agosto, 27




Preciso de concentração para pintar as unhas, para escovar os dentes, para fazer malas. Preciso de concentração o tempo todo porque, quando mais o tempo passa, mais vou me perdendo. Perdendo mesmo, de uma forma incontrolável, sem sentido, desgarrando... Tenho até medo de secar de vez e tornar-me um ser apenas falante e pensante, observador. Ando com medo de me distanciar demais da minha condição de carne.


Ela ainda diz que irá chover e eu continuo esperando.


Ninguém sabe dos meus vacilos, daqueles momentos de extrema fraqueza. Assim é porque eu aprendi a me esquivar deles... nunca há muito tempo entre um sentir e outro. Foi-se o tempo em que eu poderia saboreá-los.


Às vezes, penso em gritar. Às vezes, penso em deixar tudo pra lá. Mas, ele me disse que se sente morto, então, não estou só.


Agosto, 27
Eu disse alguma coisa sobre diários?