Fotografia, Suzana Guimarães

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dia longo. Brotoejas na cara. Saudade da mesa de vidro, da varanda, do jeep. A cachorra fede aos meus pés. Solta gases. Tampo o nariz e digito. Estou tossindo. É emocional e é porque às vezes eu me engasgo por rir. Dia longo e eu querendo dormir desde quando acordei. Saudade até de você, cara torta! Dia longo...

Agosto, 9



Eu fotografava Belo Horizonte, pelas janelas do táxi, no banco de trás, e o motorista dizia-me que eu deveria ser mais patriota. Não sei se faço belas fotos, mas meu olhar é destituído de preconceitos. Ele perguntou-me se eu queria voltar, eu disse jamais. Ele disse que eu não precisava ter medo de ter a minha câmera arrancada de mim, eu ri. Ele disse que também havia morado na América, em San Francisco. Perguntou onde eu morava. Eu disse, na Califórnia, também. Ele contestou, então você não mora em San Francisco. Bom, deixa para lá, o fato é: ele disse que ganharia o mundo, mas jamais seria radical, desfazendo-se do Brasil. Respondi que muitos problemas que temos num país, não temos no outro e vice-versa. E eu havia feito a minha opção de problemas. Ele disse que ninguém quer ter problemas. Respondi: não se vive sem eles. Ele perguntou se eu conhecia Mucuri. Ele não sabe, eu conheço o cu do mundo. 

Agosto, 9 




Acordei pensando no motorista do táxi. Ele vive em pedras e asfalto e é utópico, mal sabe onde pisa. Eu faço versos, pareço transitar da nuvem rosa para a azul, o dia todo, pareço. Eu faço versos, mas não sofro de utopia. Talvez eu seja simplesmente míope, só consigo ver de perto, o longe é longínquo demais para mim.

Agosto, 10



Falaram-me que deve haver sentido nas coisas feitas ou a se fazer. Muita gente fala-me muita coisa.
O mais louco, à frente, grita 'eu não sou louco, não!' e o que ele vê é somente a fila.
Falaram-me em bom senso. Isso me lembra a médica dizendo-me, anos atrás: "meu pai diz que bom senso não existe porque não existe a expressão mau senso".
A expressão importa. A palavra importa. E o ato. O que não importa é o desprezo do outro por mim, pois isso vai rio a baixo.


Agosto, 10






A mim, pouco coube. Não sei de mim, mas todos os personagens aves eram negros. Eu sei o que vi. Abri a porta da grande gaiola, eram várias espécies a transitar por lá. Nenhuma delas saiu porque, de longe, eu enxerguei tudo precário, mas, de perto, era tudo rico relicário. De qualquer forma, deixei encostado na pilastra mais próxima, um velho guarda-chuva, em pé, para caso de chuva. Ao lado, predominava o verde. Deixei também a porta aberta, pouco me importando se iriam gostar que eu assim agisse ou não.

Agosto, 10

Nota: não é bom tirar um cochilo à tarde.



Preciso de alguma música. Ele pensou em Por Elise, foi bom ouvir por segundos um som antigo, mas troquei pelas músicas de hoje, assim, dessa forma, agarro-me um pouco mais à mim mesma. Perdi o passado e o fio da meada faz tempo... A cadela está inquieta e continua fedendo aos meus pés. Percebi que a mesa de vidro, a varanda, aquela rotina estabelecida é tudo apenas fetiche, mania. Não desagarro de mim porque sou tudo o que realmente possuo. A cadela atrapalha meus passos quando ando pela casa. Meu vazio é maior que o mundo. Nada preenche e para lugar algum quero ir. Andei carente, necessitada, mas isso já passou. Tudo passa. Não passa somente o que insiste vivo a queimar-me.

Eu disse que gostava de diários?

Agosto, 10




O bom de se estar em casa é que, ao se perder, as chances de se achar são mais rápidas. Eu me perdi várias vezes no trânsito, ontem, a gente vai perdendo o vínculo, o que era óbvio torna-se parcialmente nebuloso...

Mas, às vezes, você não está em lugar algum. Não estou escondida na costa oeste, posso me ver por lá, mas, isso só eu posso fazer. Entretanto, também não estou exposta num país úmido, 
onde o clima se fecha sobre a sua cabeça, num abafado bafo. Estou em algum lugar que reservei para mim, e nem sei dizer se é agradável ou não esse espaço.

Dizem-me que é um glamour viver na Califórnia. Deve ser, não sei. De uma certeza, eu tenho: o glamour está em nós, não importa onde.

Agosto, 12






Ele me deu uma carona de moto. Fiz onda para subir nela - eu, cavaleira por alguns anos da minha vida. Ele olhou-me como se eu fosse uma imbecil. Por dentro, eu ria. Ele não teve coragem de diminuir-me com algum comentário, como sempre o vi fazendo, com as mulheres. Ele teve que engolir o que pensava. Subi. Na hora de descer, retomei o charme ou desgraça, pouco me importa. O que me importa é a minha diversão, mesmo que rápida, mesmo que entre lágrimas, mesmo que minha vida esteja uma desgraça. Pelas costas dele senti a sua falta de paciência. Explicou. Eu ri, levantei bem a perna e saí, só para fazer charme, mas dessa vez, foi para os caras do estacionamento que me engoliam com os olhos.

Agosto, esqueci o dia.

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