EU DISSE QUE GOSTAVA DE DIÁRIOS?
Fotografia, Suzana Guimarães
Data: Junho de 2020
domingo, 5 de julho de 2020
sábado, 4 de julho de 2020
Quatro de julho
Barulhento e memorável quatro de julho de 2020 porque para esse ano tudo fora da medida parece ser o ponto ideal.
A adolescente estira-se na frente de sua casa para tomar sol, tem música, tem toalha estendida e um maiô vermelho. Eu penso no Brasil e na impossibilidade disso. São quase sete da noite.
Os foguetes - e eles são proibidos em Long Beach - pipocam desde às sete horas da noite e já são dez e meia. Eu também me estiro, deito nas cadeiras do jardim, front yard, e, como se estivesse no meu quarto, me enrolo em manta e almofadas enquanto os meninos do bairro, os cães, os gatos, os homens, as bicicletas, a Lua - verdadeiro holofote - e estes grilos enlouquecidos não cessam um segundo de gritar... passam, tudo passa.
Olho para o céu ainda claro, já são quase onze horas, penso que tudo hoje é barulho, o mundo está gritando, eu ouço, não sei se mais alguém, R diz que sim, está gritando, e eu como Nutella às colheradas. A vontade é comer o pote todo, mas me contenho, me contenho, me contenho... essa noite está absurdamente estranha.
Tem um incêndio perto da casa do Ian, o pai ligou para os bombeiros, e esses o deixaram no esquecimento. O menino machucou os olhos em algum lugar e é preciso ir para o hospital, mas só a ideia já esmorece os ânimos...
Cinquenta corvos vieram do sul e passaram raspando sobre o telhado da minha casa, sem os gritos de sempre, e, por isso, ouvi o tatalar de suas penas, juro, ouvi, a coisa mais linda que já pude ouvir nos últimos cinquenta anos; eu nem quis fotografar porque o inusitado gravou-se nas minhas retinas e nos meus ouvidos.
Vagarosamente o absurdo da noite me acalma.
Pela manhã, ouço a voz da minha filha pelo corredor da casa:
"Today does not exist!"
Sim, minha filha, hoje não existe; nem ontem existe, embora tenha existido. Todos os dias para trás não existiram, estamos em delírios; convulsões mentais, outro dia, debruçou-se sobre mim o corpo macilento da paranoia, arrastou-me com ela, e, em fúrias, cedi a seu afeto, cálido carinho na minha cabeça a explodir...
O que existe é este gosto amargo na minha boca, que, de tempos em tempos, ressurge, soberano, mas não existe hoje. Nem ontem, nem anteontem. Existe minha loucura que embora domada, tratada, expurgada, pisoteada, freada, medicada, esquecida me assalta pelas mãos do homem mau que diz palavras bonitas. E sorri.
sexta-feira, 3 de julho de 2020
Na contramão do mundo, o presidente do Brasil "veta a obrigatoriedade do uso da máscara de proteção individual em órgãos e entidades públicas e em estabelecimentos comerciais, industriais, templos religiosos, instituições de ensino e demais locais fechados em que haja reunião de pessoas.
Ao justificar os vetos, o Planalto alega, entre outras razões, que a obrigatoriedade “incorre em possível violação de domicílio"."
Fonte: Agência Senado
Os sonhos são um mundo vasto. Sonhei com meus pés doentes, inchados, enormes. Dentro deles havia amêndoas de dor e eu mal andava. Para curar, era preciso cortar a pele dos pés com finas lâminas e arrancar assim as amêndoas que eram muitas. A pessoa que poderia retirar estava ocupada, limpando outra, mas eu aprendi, olhando, e então as retirei. Ainda fui avisá-la: óh, eu já fiz, mostrando meus dois pés enfaixados.
De onde vieram essas amêndoas, meu Deus? Já não posso mais. Já me basta ver a traição emocional golpeada em menos de uma semana... agora, é assim, tudo muito rápido. Ninguém espera mais completar alguma juntada de tempo. Ninguém espera nada. Todo mundo tem muita pressa porque preencher solidão demora e é preciso ser ágil.
Eu cá c'as minhas coisas, tenho o mundo nas minhas mãos enquanto observo meus pés enfaixados.
Coronavírus no Brasil e nos EUA
Brasil:
62.304 mortes
1.508.991 casos confirmados
EUA:
128.024 mortes
2.679.230 casos confirmados
Consideração
...significa pensar em como os outros se sentem. Para ter consideração verdadeiramente, você tem que saber como se colocar no lugar da outra pessoa. Ou empatia...
é justamente isto: a capacidade de sentir o que o outro sentiria caso você estivesse na mesma situação vivida por ele.
Mentes doentias desconhecem; no umbigo, só passa um.
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Em meu primeiro ano na academia de jiu jitsu, um colega, mais velho em idade e muito mais graduado que eu, me disse, "você não se firma em suas próprias pernas"e me sacudiu; eu não caí, firmei minhas pernas no peito dele, eu estava em cima dele, mas mesmo assim, ele me balançou muito. Ele me sacudia e dizia, "qualquer um tomba você". Essa é a ideia entre o que você pensa e o que realmente acontece. Esse é o fato: ser forte em pensamento vale nada.
Eles irão pegar você e vão espremê-lo, tal qual a uma laranja, para retirar todo o caldo e depois secarão as suas cascas para incensarem as casas deles.
Não adiantará dizer que é forte. É preciso se firmar em suas pernas antes dos fatos. Infinitas vezes, eu fui sacudida no tatame, mas aprendi tanto nele quanto fora dele a estar preparada, sem pequenas ideias de força. Prefiro pensar que sou fraca, prefiro fingir de morta, pois essa coisa de ganhar ou perder é bem relativa, e entendi que a gente precisa virar o jogo. Nessa hora, enquanto viro o jogo, serei forte e fraca, tudo vai depender do quanto preciso para retirar a sua estabilidade.
Aprendi que há gente que precisa do fraco para se sentir forte. Perto do forte, ela não funciona bem. Perto do fraco, ela irá espremer a laranja até o fim. Eu não sei se é fraca ou forte, penso que é esperta, quer segurar alguma certeza e para isso não é honesta.
Talvez eu também não seja honesta, mas ninguém veio a mim para perguntar se eu estava gostando do balanço, da sacudida, do espremer-me igual a uma laranja.
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