EU DISSE QUE GOSTAVA DE DIÁRIOS?

Fotografia, Suzana Guimarães
Data: Junho de 2020


terça-feira, 2 de junho de 2015



Meu amor arrastou-me para o tatame, hoje. Treinei com um cara que eu gosto. Mas há algo que me intriga: por que alguns colegas comentam que eu não luto jiu jitsu? Ah, por quê? Porque eu gosto das técnicas, belas feito uma dança, um balé, mas luta é luta e eu não gosto de perder. Meu amor disse-me: "Você pensa que na rua eu vou fazer técnica de Jiu Jitsu?". É isso! Foram os brasileiros que inventaram essa luta e então ela está dentro de nossos moldes e gente abaixo da linha do Equador tem fogo nas ventas, gingado nos quadris, molejo na alma. Eu empurro, escorrego, prendo, dificulto, só falta eu morder. Não mordo porque mamãe deu educação.

Eu ando pegando os últimos dias na unha. Se você for tolo, parvo e manso, mantenha distância, por favor.


Ficou triste com o que eu lhe disse? Imagina o tanto que eu fiquei quando foi comigo! Usa meus olhos, sinta com meus poros e você verá que o que eu contei pode ser mais, menos ou igual, mas nunca o mesmo, pois é imensurável.

Junho, 2


Em minha primeira semana nos EUA, eu me perdi, sozinha, sem celular e com um Inglês péssimo. Peguei chuva. Ah, como chovia! E aqui raramente chove. Andei longo tempo sem coragem para pedir ajuda. Até que me decidi e parei um cara. Falei da minha situação. Ele respondeu, "Tive uma namorada brasileira, não sei falar em Português, mas entendo, fala em Português." Ele emprestou-me o seu celular. Hoje, marido e filhos iam pela rua, quarteirão ao lado da nossa casa. De repente, uma moça de óculos escuros, muitas malas e uma camiseta "Jiu Jitsu Brasileiro". Parecia perdida. R perguntou, "Are you lost?". Ela, "I`m sorry, my English is not good". Maridão, "Are you Brazilian?". Ela, "yes". Ele, "Fala em Português porque fica mais fácil" e desandou a rir. Bom, eles me viram na figura, claro, of course. Faixa azul, veio de Maringá, para o Campeonato. Ia para o aeroporto de LA. Dívida paga.


Junho, 1

domingo, 31 de maio de 2015



Eu sempre ia afoita, cheia de esperança e vontades, muitas, ia meio que delirante, fingindo ter-me sob controle. Agora, eu vou vazia, oca, desgastada, puída, sem a mínima fé na amizade e muito menos no amor. Muito menos, na expectativa da doação. Eu ainda vou afoita, mas fingindo coisa alguma. Simplesmente vou porque quero ir.

Amanhã, inicio o regresso. Espero encontrar-me lá.

Maio, 31


Você pensa em mim com certo rancor, mágoa, sei lá, eu apenas sinto. Você sofre a ilusão da gaiola, imagina conter tudo em suas mãos largas e fortes, mas, meu bem, você desconhece a estranheza, o estar em tudo e em nada, a ignorância do que dizem. O que dizem? Pouco importa, mas é o mesmo que navegar em mar aberto sem bússola, água e comida - ah, porque há muita fome e disso eu entendo que você conheça -, é voar em céu sem pouso. Você não me alcança nem que eu falasse todas as línguas. Você não me alcança porque, enquanto falo, você pensa na resposta.

Maio, 31
Podem me tirar tudo, menos meu humor e a minha cultura.

sábado, 30 de maio de 2015

Faça-me rir e eu o farei rei.


Ontem, R. e eu fomos à uma festa em um bar. Fui convidada há um mês. A aniversariante me recebeu com muita simpatia, abraços e sorrisos, mostrou-se muito educada, gentil e agradável... ela trabalha na escola onde meu filho estuda. Chegamos um pouco tarde e não havia assento para nós. Era um bar e para mim tudo estava ótimo! De repente, vejo dois lugares desocupados. A gente senta. R me diz que ouviu duas pessoas dizendo que éramos intrusos e que uma fulana ficasse de olho nas bolsas em cima dos sofás. R. não queria me deixar passar, claro, eu iria enquadrar aquela criatura... eu precisava que ele se levantasse para eu passar. Quase rosnei, daí, ele cedeu. Uma das pessoas estava de costas, eu cutuquei dois dedos em suas costas e meu Inglês que quase nunca sai bom, saiu mais que bom, perfeito, alto e em bom tom. Uau! Ninguém fala merda na minha frente, não! Se falar, leva!


Eu disse por acaso que gostava de diários?

Maio, 30
Homens são atraídos pela beleza. Mulheres, pela oculta promessa.

sexta-feira, 22 de maio de 2015



A falta do amor ou ele próprio, um falso, eu vejo devagar, demoro anos. O amor de verdade, vejo numa fração de segundos.

Eu disse que gostava de diários?

Maio, 22

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobre crise


Aprecio a crise. Sem ela, tudo é festa. Tudo está ótimo e as pessoas são afáveis e sorridentes. Todos iguais, feito soldadinhos na fila. Aprecio a crise porque é ela quem faz a desordem e retira as máscaras; mostra a verdade. Gosto dela, apenas dela. As reações humanas que irão compor esse momento são óbvias demais. Nada contra o óbvio, mas dar de cara com o verdadeiro caráter de uma pessoa é algo esperado. Só os tolos não pensam ou aguardam por isso! Eu aprecio o fogo ardendo e os ratos correndo. 


Marcante maio, 2015

sábado, 16 de maio de 2015

disappointed...



(arquivo pessoal de Suzana Guimarães)

The word is disappointed... As palavras são bonitas, algumas definem tudo em poucas sílabas, dispensam frases, dispensam sentenças, dispensam orações.

Maio, 2015